Álcool com açúcar

Insonidades, livros, quadrinhos e os dramas da vida cotidiana

sexta-feira, novembro 16, 2012

 




leituras saudosas



um apanhado dos meus ultimos posts de 2004 (que foram todos deletados)



A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de 1946 (Sagarana edição revista)

O Nhô Augusto é uma das personagens mais bem acabadas do Guimarães Rosa (e eu nem gosto de contos, mas esse conto é um dos melhores da literatura brasileira, imperdível). Cel Augusto Esteves, ou Nhô Augusto é o tal sangue ruim mimado, safado, atrevido, infantil, apesar de ser um homem feito, fazendeiro que cresceu sem mãe, que, depois de tomar uma bela lição (falir, perder a mulher e a filha, e cair nas unhas dos inimigos), teve um lampejo do que tinha sido a sua vida até então. E os seus valores, e os seus atos? O que foram? E vislumbrou finalmente, as consequências da sua falta de respeito, da sua mediucridade, enfim, teve a consciência de como era pequeno, de como era pouco, de como ele não fazia diferença na vida da pessoas que no fim, eram importantes para ele. Mau pai, mau filho, mau marido, mau patrão, mau amigo, enfim, um merda.

Sorte dele, algumas pessoas, apesar de pagarem um preço alto por suas atitudes, nunca mudam sua perspectiva, e, no final, acho que, se tivessem esse lampejo que ele teve, seriam tão imbecis que nunca mudariam, continuariam nessa vidinha vazia, importunando os outros e ainda se achando os donos da verdade. Quer coisa pior que isso: uma vida inteira a serviço de nada.... Pior é que conheço gente assim aos punhados.. Guimarães Rosa nos mostra, com a trajetória de Matraga, de que é possível fazer algo quando a sua vida está totalmente vazia, mas o primeiro passo vem de dentro. (O que? Eu, uma pessimista convicta falando isso? Bem, eu gosto de ler ficção, gosto de dramas, gosto de Guimarães Rosa e, e como tudo o que eu faço, isso é mais uma forma de fugir da realidade, de repensá-la.

é claro que a mentalidade dele continua simples, é o Nhô Augusto gente.

" ...Pra o céu eu vou nem que seja a porrete... "

mas mesmo assim, considerando-se os valores dele antes e depois da lição, a convicção dele em melhorar é o que conta, e tenho certeza de que ele foi pro céu. Ele descansou gente, ele morreu em paz. He was ready to go

quantas pessoas podem morrer em paz consigo mesmas hj em dia?


PUXA o Nhô Augusto é uma das minhas personagens favoritas!



"E ele teve uma vontade virgem, uma precisão de contar a sua desgraça, de repassar as misérias da sua vida. Mas, mordeu a fala e não desabafou. Também não rezou. Porém, a luzinha da candeia era o pavio, a tremer, com brilhos bonitos no poço de azeite, contando histórias da infância de Nhô Augusto, histórias mal lembradas, mas todas de bom e bonito final. Fechou os olhos. Sua mãos, uma na outra, estavam frias. Deu-se ao cansaço. Dormiu."




não dá, eu tenho que reafirmar. Guimarães Rosa é muito bom! Que saudade das leituras.
Sabem porque ele é tão bom? Riobaldo. A construção das personagens. Riobaldo se debate contra as forças do bem e do mal. Mas ora, quem é o hospedeiro dessas forças? O Homem né, é no homem que essas forças residem, o medo faz parte da nossa natureza, mas qual é o medo maior e onde ele está? No próprio homem. ... Porque ele concentra em si as forças do bem e do mal (isso não tem a ver com deus,
afinal deus não existe, mas o diabo sim). Por que é tão incômodo ter dúvidas? porque dúvidas geram insegurança, e insegurança gera medo. Que é que ele vai fazer com essas forças? Uma hora vc tem que fazer algo, vc vai agir como o homem "humano", cujos instintos vivem aprisionados pela sociedade? O que é pior? Ser assim ou ser como o homem que vive que nem bicho, à mercê dos instintos?
Isso depende também da situação, tem gente boa que até mata os outros, ou, se não mata, magoa demais, mata aos pouquinhos.

"Aqueles ali eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, de gente como nós, com madrinhas e mães - eles achavam questão natural que
podiam salientemente cumprir por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem - o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano".


em Grande Sertão Veredas


É isso que ele está dizendo, "...o senhor me entende?" O senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano". A gente reza pros nossos santos, mas se precisar matar a mãe de alguém, vamos em frente.
Tem gente boa que até mata os homens? Deu pra entender? O Guimarães é admirável. O regionalismo universalista já é poderoso em si, e ainda Guimarães teima e escreve uma história que se passa no sertão dos cafundós do nada e a gente vai ler, e veja só, o cara entrou dentro da gente. Eu tenho medo de homem humano.



Dibs in search of self

Alguém ae já leu/ouviu falar do livro Dibs in search of self? É um livro de 1964, sobre uma criança que apresentava comportamentos paradoxais (ora muito imaturos, ora muito avançados) aos 5 anos de idade, quando uma série de circunstâncias a levou ao tratamento com a autora, a psicóloga e ludoterapeuta V. M. Axline. O assunto é, primordialmente,a reorganização emocional dessa criança através da ludoterapia, para a qual foi utilizada uma sala de brinquedos. A partir da reconstrução da personalidade de Dibs, acontece a reorganização da sua família inteira. Cada passo de Dibs em direção a si mesmo, na sala de brinquedos é uma lição de vida para o leitor. Quando ele avança um passo, é um alívio, e quando ele regride é uma tristeza. É um livro bem conhecido, discutido e rediscutido nos meios "psiquiátricos", e, para mim, um livro muito importante. Eu não sei bem explicar por quê, a primeira vez que li foi em 89. Acho que é porque (dentre outros mil e um aspectos intrínsecos à narrativa, lógico) hj em dia, e nos últimos quase 2 anos, esse blog tem sido a minha própria sala de brinquedos.

E o que ele fez lá, que foi se libertar das amarras emocionais que o impossibilitavam de ser uma pessoa completa, eu faço aqui....





mas à noite, no escuro, o Graciliano Ramos aparece em sonhos e me diz em forma de romance, algo que eu sinto na realidade:

"...a vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto, o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão. É horrível! Se aparecesse alguém...Estão todos dormindo..."

em
São Bernardo
Graciliano Ramos



sábado, fevereiro 06, 2010

 

Uma historinha






Nas palavras de Caio Fernando Abreu, (Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)




Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
.
.
.
.
.
.
.



PS: Caio Fernando Abreu foi me apresentado pela primeira vez por meu ex professor de inglês, Carlos N.
Thanks Carlos!!!






segunda-feira, novembro 02, 2009

 

21 grams







No filme 21 Grams, há um trecho de um poema que Paul recita para Christina em um almoço:

"A terra girou para nos aproximar,
girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
até que finalmente nos uniu neste sonho..."


cujo original é

La tierra giró para acercarnos,
giró sobre sí misma y en nosotros,
hasta juntarnos por fin en este sueño,
como fue escrito en el Simposio.
Pasaron noches, nieves y solsticios;
pasó el tiempo en minutos y milenios.
Una carreta que iba para Nínive
llegó a Nebraska.
Un gallo cantó lejos del mundo,
en la previda a menos mil de nuestros padres.
La tierra giró musicalmente
llevándonos a bordo;
no cesó de girar un solo instante,
como si tanto amor, tanto milagro
sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito
entre las partituras del Simposio.

Eugenio Montejo
(Caracas, Venezuela, 1938)

Coroação de um triste e belo contexto criado pelo roteirista Guillermo Arriaga




sábado, agosto 22, 2009

 

Psicanálise x Literatura





Hoje é dia de ler Guimarães Rosa novamente.

Esse post surgiu de uma conversa com um garoto que acredita ser a psicanálise a chave para entender as pessoas, e, por isso, prega a inutilidade da literatura. Repliquei que, apesar de considerar a psicanálise extremamente válida e eficaz, preferia tentar entender as pessoas através da literatura, pois ela, além do entendimento do outro, também trazia uma perspectiva de auto-conhecimento não tão dolorosa quanto a que o processo psicanalítico nos proporciona. Nem sei porque continuei conversando com ele, já que "Fulano" não entendeu nada do que eu disse. Ele nem ao menos sabia o que era um divã. Anyway, essa conversa em uma carona de guarda-chuva (ah sim, foi por isso que continuei falando com ele) me serviu pra pensar em coisas interessantes no resto do caminho pra casa.

Ahhh... a literatura, que tipo de arte pode nos trazer tantos universos diferentes quanto ela?

Espanto quando estou lendo alguns trechos de livros que releio todos os anos e encontro situações pelas quais já passei, mas que, na época eu não tinha noção do que estava ocorrendo. Sempre me emociono.

Um exemplo disso é o seguinte trecho do Grande Sertão Veredas, no qual Riobaldo descreve o dia em que permitiu-se olhar diferente para os pássaros do sertão, que, antes dessa ocasião, eram para ele apenas caça.

" O rio, objeto assim a gente observou, com uma croa de areia amarela, e uma praia larga, manhãzando, ali estava re-cheio em instância de pássaros. O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. O comum: essas garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburu; o pato verde, o pato preto, topetudo; marrequinhos dançantes; martim-pescador; mergulhão; e até uns urubus, com aquele triste preto que mancha. Mas, melhor de todos - conforme o Reinaldo disse - o que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rio-abaixo e rio-acima: o que se chama o manuelzinho-da-croa.
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era pra se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: - É formoso próprio - ele me ensinou. Do outro lado, tinha vargem e lagoas. Pr'a e pr'a, os bandos de patos se cruzavam - "Vigia como são esses..." Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. - "É aquele lá: lindo!" Era o manuelzinho-da-croa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos, catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea - às vezes davam beijos de biquinquim - a galinholagem deles. - É preciso olhar para esses com um todo carinho..." - O Reinaldo disse.. Era. Mas o dito assim botava surpresa. E a macieza da voz, o bem-querer sem propósito, o caprichado ser - tudo num homem de armas, brabo bem jagunço - eu não entendia! Dum outro, que eu ouvisse, eu pensava: frouxo, está aqui um que empurra e não culha. Mas o Reinaldo, não. O que houve, foi um contente meu maior, de escutar aquelas palavras. Achando que eu podia gostar mais dele. Sempre me lembro. de todos, o pássaro mais bonito e gentil que existe é o manuelzinho-da-croa..."



É um trecho que mostra de forma muito singela como um bem querer pode nos fazer enxergar além, olhar e realmente ver algo que não se nota na rotina. A mudança de visão de mundo, a descoberta do mundo e, junto dela, a descoberta de si mesmo, a noção de se estar vivo, de sentir o mundo. Ainda mais quando se trata de uma história que se passa num sertão de antigamente, mas que estranhamente, fala de mansinho daquilo que se passa dentro da gente.


E alguém conhece o livro O Amor nos Tempos do Cólera, do Gabriel Garcia Marquez? Livro que leio todos os anos, e por incrível que pareça, faço isso porque fico com saudades da história.

Numa das passagens mais memoráveis, o autor conta que o Florentino Ariza, personagem principal, num desses carnavais de rua, estava na caça das suas "passarinhas" perdidas no bonde, um dos seus locais preferidos pra encontrar mulheres carentes, e viu uma moça com cara de "inválida", isto é, frágil, como se estivesse doente, e vestida mesmo com roupas de hospital. A sua fragilidade chamou a atenção, e ele a convidou para ver os blocos na rua e tomar um sorvete, pois achou que ela não daria para mais. A moça aceitou, mas avisou que era uma louca do hospício. Quando foram para a rua, ele viu que a inválida se transformou numa dancarina espetacular, dançava as músicas do carnaval, mexia o corpo como profissional e parecia se divertir como nunca, dizendo:

- você nem sabe a encrenca em que se meteu, sou uma louca do hospício.

Ele, que naquela altura já tinha formulado o próximo passo, a convidou para ver a lua no farol do cais. E ela disse que sim, agradecida, depois que vissem passar mais uns blocos.
Ele ficou com a sensação de que esta demora lhe salvou a vida, pois dois enfermeiros do Manicômio da Divina Pastora a cercaram no meio da multidão que dançava, e ela se defendeu usando tesouras de podar que tinha escondidas no corpo. Machucou várias pessoas, degolou um guarda, e foi presa. Os enfermeiros disseram que era uma louca que havia fugido pois queria pular o carnaval na rua.

Impressionado com a história da inválida, Florentino comprou uma caixa de chocolates e foi visitá-la no fim de semana seguinte no manicômio, onde se ouviam os gritos das loucas do lado de fora. Ele entrou e a procurou, mas ela não apareceu. Depois disso, todo fim de semana ele ia para lá, e agitava a caixa de chocolates quando passava no corredor das portas da insanas, para ver se ela aparecia, mas ela nunca apareceu.

Na última vez, ele estava no bonde com a caixa de chocolates do colo, e uma menininha sentada ao lado, junto com o pai lhe pediu um dos chocolates. O pai ralhou com ela, mas Florentino deu a caixa toda à garota e confidenciou ao pai:

- Eram para um amor que foi para o caralho.

O amor é uma doença, como o cólera, que leva a uma morte em agonia, após um penoso padecimento físico e psicológico, mas também cresce, amadurece e continua com a idade e as adversidades, por toda a vida.

E quem aqui já não teve um amor que foi para o caralho?


Aí reside a função do artista na sociedade. Captar pequenas nuances da realidade, processá-las internamente e produzir algo novo, belo, que possa nos dizer, transmitir uma mensagem sobre nós mesmos e sobre o mundo onde vivemos de modo que isso se torne uma experiência transformadora, uma travessia irremediável, um caminho daqueles que você olha pra você antes e depois e vê uma diferença que é simplesmente tudo, e como antes tudo era simplesmente vazio, sem cor, sem sentido, e não era a toa que, em tantas ocasiões, viver não valia a pena. Claro que isso pode ser alcançado através da utilização da psicanálise, um processo eficaz sim, e também longo, trabalhoso e oneroso, com muitas perdas no meio do caminho, muitas lutas. Mas por que atravessar tudo isso nessa vida já tão tortuosa sem nos deixarmos envolver por uma boa história, uma música, uma escultura, uma paisagem? Se acrescentarmos ao menos um pouco de beleza ao autoconhecimento seria tão menos doloroso aprender...




sexta-feira, julho 17, 2009

 

Esboço de loucura







A polícia rodeava a rua iluminada por luzes características de ambulâncias e carros de resgate, gente se amontoava em locais próximos às margens de segurança, e o barulho de hélices e gritos tornava incômoda a conversa em qualquer nível. Os agentes corriam para todos os lados, tentando organizar a multidão, única coisa que ainda podiam fazer. A noite caía, e as pessoas continuavam esperando, esperando sei lá o quê.

Dentro do prédio, quem viu disse que o panorama lembrava um filme de terror.
Havia corpos por todos os lados, e principalmente corpos de crianças. A fúria em matar foi tão grande, que até as bonecas da loja jaziam esfaqueadas pelo chão tingido de sangue. Era difícil acreditar que apenas um homem havia feito tudo aquilo.




Parágrafos concebidos originalmente como argumento para uma história sobre um psyco. Ainda não tive tempo de terminar



quinta-feira, julho 02, 2009

 

Como realizar um sonho






Hoje eu estava conversando com uma amiga e nós nos lembramos de um colega de cursinho com quem perdemos contato. A história dele foi muito inspiradora para mim ao longo do ano de 2008, quando estudamos no Anglo Tamandaré à noite, apesar dele nunca ter sabido disso. Vamos chamá-lo de F.

F. era um mineiro de 24 anos, que tinha vindo pra São Paulo sozinho, e se sentava ao meu lado. Não conversávamos muito, pois ambos estudávamos nos intervalos, éramos fechados e tínhamos pouco tempo. Depois de uns 2 meses de aulas, ele me ofereceu uma bolacha, e, aos poucos, fomos nos familiarizando. Em geral, houve um entendimento entre nós para guardarmos lugar um para o outro ao chegarmos. No início do ano, F. sempre estava atrasado, pois trabalhava numa loja de máquinas industriais no Brás, centro velho de São Paulo. As unhas dele eram todas machucadas, e seus dedos, maltratados. F. queria fazer Química na USP e prestava especial atenção às aulas de matemática, matéria em que tinha muita dificuldade.

No meio do ano, o volume de informações foi aumentando de forma exponencial, os simulados ficaram mais complicados, e F. começou a fazer menos pontos. Muito menos. Nessa época, ele sempre chegava nervoso ao cursinho, sentava e ficava estudando, com ar angustiado. Após um dos simulados, perguntei a ele por que estava tão alterado. F. me disse, sério, e com os olhos vermelhos, que estava no segundo ano de cursinho, e tinha vindo de uma escola pública no interior de Minas Gerais, estava vendo seus pontos no simulado decaírem e preocupava-se se ia conseguir passar, devido ao tempo escasso de que dispunha, já que trabalhava o dia inteiro. Eu passava pelo mesmo problema, não podia ajudá-lo, a não ser com a correção de alguns exercícios, porém pude ver o quanto aquilo era importante para ele. E assim, continuamos a nossa rotina de estudantes do noturno que têm compromissos de trabalho.

Um dia, no final de junho, ele chegou diferente, parecia iluminado. Não esperou minha pergunta para se explicar: tinha tomado a decisão da sua vida. Pediu demissão do serviço para ficar estudando o dia inteiro no Anglo, mudaria para um quarto mais barato no Bom Retiro (R$ 300), viria para o cursinho de bicicleta para economizar com o transporte, almoçaria no restaurante popular da rua Galvão Bueno (R$ 1,00 a refeição), e desta forma, poderia viver com suas economias por cerca de 1 ano.

E assim foi. Ao longo de todo o segundo semestre, F. chegava ao Anglo às 8 da manhã e ficava até acabarem as aulas, às 22:45 hs. Encontrei-o em alguns dias nos quais eu mesma chegava mais cedo, quando não havia atividades da pós-graduação.

O mais interessante foi que ele, ao estudar de verdade o conteúdo, começou a se entusiasmar com a própria matéria, e cada exercício de matemática que antes era uma dificuldade, tornou-se um desafio. Eu mal o conhecia, mas gostava de ver seu sorriso ao vislumbrar a solução de um problema como se ele estivesse vendo algo mágico. E não foi só isso. Apesar de ter o dinheiro contado, F. comprava todos os dias o jornal "O Estado de São Paulo" e lia cuidadosamente os editoriais para estudar redação, melhorando consideravelmente suas notas (nós do noturno estudávamos redação aos sábados). Ele também conseguiu ler todos os livros da lista Fuvest/Unicamp nesse período, se envolvendo criticamente com os respectivos enredos. Tivemos muitas discussões sobre Augusto Matraga e o Burrinho Pedrês. Suas dúvidas passaram a ser mais complexas, e seu interesse por matérias que iam além do vestibular aumentou. Emprestei a ele o livro "Grande Sertão Veredas", já que F. havia se tornado fã incondicional do seu conterrâneo, Guimarães Rosa.

Na nossa única conversa mais profunda, perguntei a ele qual foi a sua motivação para sair do interior de MG e vir a SP. F. disse, com aquele jeito de mineiro e torcedor do Atlético, que terminou o colegial, e simplesmente precisava trabalhar mas estava meio perdido na vida. Não recebeu orientação dos pais, que eram humildes. Tinha 22 anos quando chegou a SP. E depois, perguntei quando foi que ele, já em SP, estando lá em seu trabalho na fábrica de máquinas industriais do Brás, tinha tido a iniciativa de querer fazer algo diferente da sua rotina, de ir além. Aí sua resposta foi um pouco mais detalhada: respondeu que se sentia com tempo livre e queria fazer algum curso à noite, pois não queria perder aquele tempo. Como uma moça da mesma divisão que ele comentou que ia fazer cursinho Anglo em Guarulhos, ele resolveu conhecer o local, gostou da idéia e se matriculou. No primeiro ano, em 2007, F. se entusiasmou com os novos conhecimentos e a qualidade dos professores, decidiu cursar Química, mudou de unidade para o Anglo Tamandaré, começou a querer ir mais fundo. Nesse ano, apesar dos progressos, não conseguiu passar para a segunda fase da Fuvest. F. poderia ter parado por aí, mas não. Essa decisão de continuar em frente em geral não tem volta, e mostra que ele já era diferente. F. queria ser alguém, e seu esforço pra isso mostra que ele não precisava de ajuda, ele sabia que tudo dependia exclusivamente dele.

Uma situação que nunca esqueço ocorreu ao final das provas. Um dia, já nos preparando para a segunda fase da Fuvest, encontrei-o no corredor tomando um café, estava visivelmente cansado. F. ficava com os olhos vermelhos quando estava exausto. Contou que ficara lavando roupas no tanque até as 4 horas da manhã para não perder tempo de estudo no final de semana. Eu, que nem imaginava uma pessoa conhecida sobrevivendo sem uma máquina de lavar roupas, fiquei sem palavras, constrangida. Mesmo tendo uma rotina pesada, F. aparecia no cursinho sempre com roupas limpas.

A essa altura, o seu sonho de entrar na USP era apenas uma questão de tempo, e foi o que aconteceu: F. foi aprovado na primeira chamada no curso de Química, dentre os primeiros colocados.

A última vez em que o vi foi na festa dos aprovados do Anglo, em fevereiro desse ano. Ele já estava de malas prontas, ia se mudar para a moradia estudantil e se preparar para o início das aulas. Nós nos despedimos. Ele foi, enfim, em direção ao seu futuro de químico.

E assim F. passou, sem nem saber que representou um exemplo de persistência e crescimento para mim. Quem o vê hoje, talvez não enxergue a transformação que ele atravessou nos últimos 2 anos, os passos que teve que dar para ir de vendedor de máquinas industriais no Brás a universitário do curso de Química da USP. Talvez isso não importe mais. Talvez. No entanto, sinto-me privilegiada em tê-lo conhecido e poder contar a todos a história que ele começou a escrever: a sua própria.






domingo, maio 17, 2009

 

Garimpando histórias




Era assim todos os dias. Onofre acordava cedo por causa dos barulhos dos carros no viaduto, e ia procurar alguma padaria, únicos estabelecimentos abertos àquela hora da manhã. Ver se conseguia uns pães amanhecidos. De vez em quando, no inverno, tomava leite e café num albergue onde passava as noites mais frias do ano, no centro da cidade.

Naquela manhã, acordou com a tosse persistente. Não tinha papel, e a mão ficou borrada com sangue, limpou nos trapos. Já fazia um tempo que as tosses começaram. No início, não incomodavam. E vinha a dor, uma dor que parecia que tinha que sair, que rompia impaciente e dilacerava os pulmões.

Limpou-se e continuou andando. Essa era sua vida: perambular com o saco de quinquilharias pelas ruas da cidade até a hora do almoço. No Brasil, diziam, ninguém morre de fome. E era verdade, sempre conseguia algo para comer, mais comum era o velho Gerardo dar os restos do almoço à tarde, homem bom aquele Gerardo. Até conversava um pouco, sempre maldizendo o governo. Depois, Onofre procurava jornais velhos pra vender ou ler. A maioria de seus companheiros não lia, então, acabava a tarde relatando as notícias das terras remotas e mesmo do país a eles. Também inventava notícias novas e antigas, fantasias que enchiam a vida dos indigentes até a hora do sono chegar.

A noite começou com um vento, frio e forte, que vinha por aí. Estava com os dois amigos habituais terminando uma metade de cigarro, quando sobreveio o acesso novamente: a tosse, que não parava. O aperto no peito, que ardia como fogo. E no escuro, Onofre inclinava o corpo, e parecia uma torneira pingando. Sentou-se. Os colegas se afastaram. Oras! Não era nenhum doente! Todo mundo tinha uma tosse alguma vez na vida.
O pôr-do-sol já havia passado há muito, mas a calçada tingia-se lentamente de vermelho.

Arrumou o chão no viaduto para tentar dormir, mas não conseguiu: chiado e sempre a falta de ar. De madrugada, saiu. Quem sabe andando um pouco, melhorasse. Passou, tossindo, por um trecho da rua Riachuelo, até que não agüentou, a visão escureceu e ele caiu. Ficou estendido no meio fio, sem forças, pensando no que ocorrera. Frio demais! Parou um carro. Era a polícia, queriam saber o que tinha. Ao ver o sangue, que borrava toda a sua roupa, decidiram deixá-lo no pronto socorro da Santa Casa.

Chegando lá, notou que os doutores tinham receio de encostar nele. Cheiro ruim. Seus trapos se destacavam frente ao branco do antigo ambulatório, mandaram tirar a roupa, deram uma camisola, tomou banho, deram sabão especial pra piolho, que era muito, até se viam os bichos andando nos cabelos do peito, uma parte empapada de sangue. Piolhos pelo corpo inteiro, não tinha como fugir desse mal. Uma vez, conseguiu dinheiro para comprar um sabão especial pra bicho, e um companheiro do albergue onde estava tomando banho o roubou. Oito reais.

Tiraram chapa, fizeram um, dois exames de sangue, falaram uma doença de nome difícil, e que teria que ficar internado por uns dias lá pra tomar remédios na veia.

Onofre pensava na situação. Nunca estivera num hospital. Por outro lado, os estudantes se alvoroçavam, vinham conversar com ele, saber de sua vida. Ele contava feliz, todo mundo gosta de ser ouvido, principalmente quando se está num lugar desconhecido, sozinho, doente, sem entender o que acontece.

Contava que trabalhou muitos anos misturando tintas e solventes. Os estudantes balançavam as cabeças, exclamavam, formulando hipóteses. Trabalhou com cal, pintou muita mureta e prédio grande, e um dia, o patrão o demitiu. Ele não dava jeito de encontrar outro emprego, aí a mulher foi embora com a filha pequena, ele ficou numa pensão, até que acabou o dinheiro. Foi despejado, e assim, ganhou a rua. Os estudantes se espantavam em encontrar um mendigo que gostava de conversar, contar as coisas, os "causos". Divertiam-se com as suas reclamações sobre a comida do hospital. Mesmo um indigente tem seus valores. E o dele era a liberdade do viaduto. Queria ir embora, voltar logo pra sua casa, que era a rua. Será que sairia logo dali?
Conversas. Passos no corredor. Tosse. Cansaço. Sono. Há quanto tempo mesmo não se deitava numa cama?

Enfim, Onofre dormiu, embalando seu sonho, que era o último: os doutores o deixariam ir, e levar o sabão pra piolho.




A construção do Onofre foi um exercício de narrador onisciente, para treinar o uso do discurso indireto livre

domingo, maio 10, 2009

 

Como uma releitura de "Maus" acabou virando um post sobre o Amor





Se pararmos um pouco pra pensar sobre a nossa época, veremos que os tempos são de individualismo, consumismo e, sobretudo, solidão. Tudo é descartável e ninguém é insubstituível. Nunca estivemos tão rodeados de gente e tão sozinhos. O amor, que já foi tão idealizado e rechaçado, louvado e amaldiçoado, cultuado e proibido, viu-se transformado num mero produto. E o mais engraçado, é um produto que todos querem, mas ninguém encontra: está sempre com os outros. Individualistas e consumistas que somos, perguntamo-nos desesperadamente onde ele está, o que estamos fazendo de errado para que ele não nos alcance, o que precisamos adquirir, usar, depilar, chapinhar, malhar, assistir, ler, beber, comer; que locais frequentar, e quais sites entrar, para que ele venha ao nosso encontro??? Francamente, é desanimador ver todas as pessoas felizes e contentes juntas, e nós aqui, sozinhos....

Deste modo, toda uma indústria é montada para nos mostrar o quanto somos incompetentes em nos fazermos amados. E dá-lhe revista "Nova" para aprender melhores técnicas de conquista, e dá-lhe "Men's Health" pra descobrir como ter uma noite nota 10 no primeiro encontro, e dá-lhe implante de cabelo pois nem sempre é dos carecas que elas gostam mais, e dá-lhe Viagra, e luzes caríssimas pois os homens preferem as loiras, e dá-lhe blogs que escrevem as melhores dicas pra que uma "ficante" vire uma namorada, e por aí vai. Porém nada disso adianta: continuamos sozinhos. Mesmo após encontrar alguém, continuamos sós e procurando, lendo e consumindo tudo aquilo que pode nos tornar mais e mais amados, mais e mais valorizados, para que essa pessoa não queira nos trair, trocar-nos por outra melhor, mostrar-nos que vivemos sob uma máscara para que o nosso próprio eu não se dê conta da nossa insignificância nesse mundo.

Aí instala-se um impasse: o relacionamento passa a ser o que direciona a vida, pois o "relacionar-se" tornou-se a nossa alma exterior. Alma exterior é o o conceito formulado por Jacobina, personagem de Machado de Assis no conto "O Espelho". Segundo Jacobina, no homem, não há uma alma, e sim duas, que se completam como metades de uma laranja: a alma interior, que olha de dentro para fora, e a alma exterior, que olha de fora para dentro, e que seria a personificação da própria existência em algo exterior à pessoa. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, um objeto. "Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira (...). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira".

Mas e se estivermos procurando pelo amor de forma errada? Se esse amor que tanto buscamos e tanto vemos nos outros e que, quando encontramos, torna-se uma obsessão mas não nos satisfaz, for apenas a realização de uma expectativa enviesada, ou seja, ocupar apenas a posicão daquilo que, a nossos olhos, vai nos valorizar, nos trazer status perante nossos semelhantes, e mostrar, momentaneamente, a nós mesmos que sim, que somos especiais o suficiente para conquistar alguém, que nossos esforços foram contemplados?

Enquanto relia o Maus*, era exatamente isso que me passava pela cabeça. Será que essa realidade tão seca também não deturpou nossas expectativas, a ponto de estarmos rodando no escuro e buscando por algo que seguramente nos trará alívio e nos trará bem estar, mas que é muito diferente do amor em si, e é por isso que os relacionamentos hoje estão tão descartáveis? Será que estamos realmente procurando pelo Amor?

Mas o que isso tudo tem a ver com o "Maus"?

"Maus" vocês devem conhecer: a única história em quadrinhos premiada com um prêmio Pulitzer especial em 1992, e cujo autor, Art Spiegelman, foi eleito em 2005 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.



Bem, o caso é que eu estava relendo a história, e essa segunda leitura além de conversas com amigos que acabaram de se separar ou terminaram um namoro/caso me levaram a algumas reflexões sobre essa coisa tão inexplicável que são os relacionamentos de hoje.

No livro de Art Spiegelman, temos um casal judeu bem sucedido: ele, dono de fábrica de tecidos, ela, rica culta e organizada, ambos pais de um menino de 4 anos e vivendo na Polônia. E então vem a Segunda Guerra e o III Reich. A família perde tudo o que tem: dinheiro, bens, os pais, parentes, o filho e a liberdade. E então, a única coisa que restou a eles nesses duros anos foi a ínfima esperança de se verem novamente, após terem sido separados no campo de concentração de Auschwitz (naquela época ninguém que estava nos campos sabia se a guerra iria acabar, e como iria acabar, o clima era de incerteza total frente ao futuro). Esperança esta que certamente teria perecido, caso ambos se vissem como almas exteriores um do outro. Aí podemos ver que, naquela situação de guerra, privação, e medo da morte, não havia nada em um que valorizasse ou troxesse status ao outro. E, no entanto, não havia, naquele momento, nada que, para um, fosse mais importante que o outro. Pegue uma guerra que tire tudo aquilo que fazia de você alguém na sociedade, e veja se te resta algo além da esperança de reencontrar quem você ama.

E assim como foi no relato de Art Spiegelman (trata-se de seus pais), eu ainda acredito nesse Amor. Acredito em relacionamentos nos quais as pessoas não sejam simplesmente fardas de alferes** umas para as outras, mas sim tenham importância por todas as experiências que passaram, por tudo que construíram juntos, enfim, por terem uma história de verdade, que seja suficientemente valorizada por ambos, que seja forte para manter os revezes nos seus devidos lugares, para que se priorize sempre o respeito, a cumplicidade, o cuidado. Difícil? Sim. Difícil lidar com a complexidade do outro, e do outro junto de si. Difícil reinventar todos os dias uma relação para que ela sempre se renove sem nos sentirmos fracos, ou não nos inclinarmos ao caminho do mero conformismo. Coisa que hoje, infelizmente, só se vê em histórias. E é por isso que não consigo deixar de lê-las e nem de me emocionar com elas.




* Mais sobre Maus em: Resenha Maus




** No conto "O Espelho", de Machado de Assis, Jacobina é nomeado Alferes Municipal, espécie de delegado da cidade, que tinha que usar uma farda específica. Jacobina vai para a casa de uma tia, onde é aclamado em seu uniforme como sr. Alferes, detentor de um importante status social. Porém, logo depois, todos da cada viajam por alguns dias, e Jacobina, sozinho, começa a ficar deprimido. Um dia ele resolve se olhar no espelho e vê a sua imagem difusa, embaçada, mas quando veste a farda de alferes e se olha no espelho, a imagem aparece nítida novamente. Ele, então, realiza o ritual de colocar a farda e olhar-se diariamente no espelho até que todos voltem de viagem e possam novamente aclamar-lhe pela posição social que ocupava. A farda havia se tornado a alma exterior de Jacobina.












quarta-feira, outubro 15, 2008

 

Coisas que sempre devemos ter em mente




Diálogos Sblarguianos
Livro 43 - Capítulo Terceiro - Versículo 251 - parágrafo 2


Rebs diz:
Sofrimento por exemplo.
Todo mundo sofre, e não são tantos assim os motivos para se sofrer... todo mundo sofre, e sofre mais ou menos pelas mesmas coisas...

Rebs diz:
às vezes dá agonia de ver como todo mundo é tao igual

Sblargh diz:
É.
Acho que uma grande decepção na vida é perceber que você sofre tanto de amor quanto o pagodeiro, só que ele chora em português.

Rebs diz:
é tudo tao comum

Sblargh diz:
Você não é daquelas que acha que é tudo hormônio?

Rebs diz:
é o que temos em comum, a natureza

Sblargh diz:
Sei lá o que é natureza.

Rebs diz:
é o que temos em comum, a natureza humana, que determina as nossas
limitações. Ver que todas as sensações são tão comuns me dá agonia, vejo que não dá pra fugir disso afinal

Rebs diz:
eu queria ter uma surpresa boa

Sblargh diz:
Talvez você tenha. Não saber é o que faz surpresas serem surpresas.

Rebs diz:
talvez

Rebs diz:
no meu laboratório tem uma espécie de geladeira da Coke com prateleiras pra pôr as gaiolinhas de camundongos.

Rebs diz:
Um dia, eu olhei as gaiolas através da porta de vidro fechada, havia um camundongo que fugiu da sua gaiola e estava parado na grade de cima.

Rebs diz:
ele conseguiu fugir daquela gaiola apertada e talvez até se sentisse bem com tanto espaço para fora

Rebs diz:
mas a porta da geladeira estava fechada, e, mesmo tendo fugido da sua gaiola, ele não poderia nunca escapar da geladeira. Ele estava preso àquele universo da geladeira, a não ser que alguém fosse lá e abrisse a porta. Não é triste ver que você não pode fugir do universo a não ser que alguém abra a porta?

Sblargh diz:
Ser dependente de outro humano é triste quando você é um humano, imagina quando você é tão pequeno.





segunda-feira, abril 07, 2008

 

Elementarteilchen









O início da vida costuma ser muito nebuloso. A infância, a adolescência, e os primeiros anos da juventude são períodos que alternam despreocupação com o futuro, desconhecimento sobre as consequências dos nossos atos e angústias geradas por vivenciarmos situações totalmente novas. Tudo isto piora um pouco se não há suporte por parte dos pais, ou da sociedade, ou do que seja para o nosso crescimento interior. E o mais curioso é o fato de que boa parte das decisões tomadas justamente nessa época de inexperiência e descobertas serão as que mais influirão naquilo que nos tornaremos, na vida futura. Um bom exemplo disto é a decisão, aos 17 anos (em média) sobre qual profissão seguir.

Nesse contexto, Partículas Elementares é um filme sobre escolhas. Baseado em romance de Michel Houellebecq, o roteiro traça um paralelo sobre a vida de dois irmãos, filhos de mãe hippie ausente e pais diferentes: Michael e Bruno, que ainda jovens se definiram: um é um solitário cientista que, embora em franca expansão de carreira, vive sem sexo, à base de tranquilizantes; e o outro, um professor aspirante a devasso e a escritor que vê sua vida naufragar com um emprego medíocre, uma bebê e uma esposa cansada. O filme começa quando a vida dos dois atravessa tempos difíceis: estão adultos e em meio às consequências daquilo que escolheram. Porém, ao se depararem com a questão: -o que estou fazendo? chega, enfim, a hora de tomar algumas decisões, e é aí que ambos percebem uma chance: a perspectiva de mudar.

No entanto, nem na vida e nem no cinema as coisas são tão simples. Infelizmente, deparar-se com a chance de mudança não é suficiente. É preciso também enxergá-la, aproveitá-la e lutar por ela. E é nesse ponto que tudo começa a divergir. Em meio a vários obstáculos, Michael enfim, percebe que não se pode chegar a um elemento indivisível nas relações humanas, não se pode reduzi-las. E escolhe ser o protagonista da própria história, a despeito de não ganhar o prêmio Nobel, enquanto Bruno hesita em dar o passo derradeiro e permanece do outro lado.

Podemos observar nesta singela história de dois irmãos com personalidades tão distintas a história dos tipos de pessoas em que o mundo se divide: aquelas que, apesar de terem feito cedo as escolhas equivocadas, ainda encontram forças para voltar atrás e reviver a própria vida em sua plenitude, e aquelas que, embora também tenham se deparado com a chance de mudança, encolhem-se perante a perspectiva do desconhecido, não por comodismo, mas simplesmente por não conseguirem lidar com o peso da vida e das novas perspectivas. Nunca conseguiriam na verdade.

Devo ressaltar que um não é pior que o outro, o que o filme faz é tão e somente uma constatação a partir da realidade, daquilo que podemos apreender da nossa própria vivência. E é por isso que ele sai do patamar de um mero roteiro alemão pelo qual não vale a pena pagar um ingresso inteiro, e se torna uma interessante história de caráter universalista.


Título no Brasil: Partículas Elementares
Título Original: Elementarteilchen
Direção: Oskar Roehler
Alemanha, 2006
105 minutos
Site Oficial: http://www.elementarteilchen.film.de





quinta-feira, novembro 23, 2006

 

O preço da liberdade











Persepolis 1, 2, 3 4 (nos EUA, 1 e 2)*
Marjane Satrapi
publicados entre 2000 e 2003


O preço da liberdade

Ler Persépolis no Japão é uma experiência e tanto. Não só porque estou totalmente sozinha e com saudades de casa aqui, mas também porque estou triste, e quando isso acontece, em meio a tanto estresse e problemas com trabalho, ler comics é uma forma de recolocar a cabeça no lugar, repensar a vida e adquirir forças com a experiência de outras pessoas. Persépolis é um grande aprendizado.


Marjane Satrapi nasceu em Rasht, Iran, numa família de classe alta. Filha única em um país onde as mulheres são consideradas como a grama, e os homens como a terra (desta forma, as mulheres pertenceriam aos homens, por originarem deles), ela teve a sorte de ser educada com todo o cuidado de forma progressista pelos pais, para ser uma mulher independente, apesar da familia viver sob um regime onde o peso da tradição é muito grande para ser ignorado por qualquer um que seja. Estudou no Liceu Francês, em Teerã, teve acesso a todo tipo de literatura proibida e discussão política na época, e na infância, atravessou momentos cruciais de seu país, como a queda do Xa Reza Pahlavi, a ascensão da revolução xiita e do Ayatollah Khomeinii e por fim, já na adolescência, a guerra Iran-Iraque.

Todas essas situações estão descritas em detalhes em Persépolis 1- a história de uma infância e a sua riqueza não se deve apenas ao fato de a autora ter sido criada numa casa onde prevalecia a educação, e os pais mantinham a liberdade de pensamento acima de tudo, mas também devido ao fato de possuir uma interpretação muito particular: de criança culta, que aprendeu na pele o quanto era ruim ter heróis na família (no início, ela achava bonito dizer na escola que os tios eram heróis, mas fatalmente descobriu que os heróis morriam na prisão e seus corpos nunca retornavam aos parentes). Com o advento da revolução xiita, Satrapi foi enviada sozinha aos 14 anos para Vienna, Austria, para não ser presa na escola. Em Vienna, a menina rica que nunca havia dividido o quarto e as coisas com alguém e não falava alemão enfrentaria a indiferença de conterrâneos, a hostilidade dos europeus e o choque das culturas ocidental e oriental, viria a concluir a High School e passaria pelos primeiros problemas da adolescência, como segregação na escola e crises de auto-estima, até a decepção do primeiro amor. Além destes desafios solitários, o estigma de estar longe, enquanto seu país enfrentava uma longa guerra a levou a uma grande desestruturação mental, o que resultaria na sua volta ao Iran, 4 anos mais tarde.

Persépolis 2- a história de um retorno descreve os reflexos dos anos da guerra do Iran contra o Iraque, e do endurecimento do regime xiita na sociedade da época. Marjane entra em depressão profunda por não se identificar mais nem como iraniana e nem como ocidental, redescobre sua nova identidade, torna-se instrutora de academia de ginástica, ingressa no concorrido curso de Design na Universidade, casa-se com um colega de curso e divorcia-se alguns anos depois. Paralelamente aos fatos do dia-a-dia da autora, ela apresenta uma gama de pequenos costumes iranianos, um interessante material para conhecer o funcionamento do Iran na revolução xiita, a reconstrução da sociedade pós-guerra e principalmente os anseios das pessoas comuns.

Logo após o divórcio, o aumento da opressão social às mulheres, estimulado cada vez mais pelo fanatismo religioso, faz com que Marjane parta definitivamente para a França, onde se tornaria autora de livros infantis e histórias em quadrinhos. Apesar da segunda partida, aos 24 anos, ser menos assustadora que a primeira, aos 14 anos, Marjane, agora definitivamente uma mulher livre, não deixa de pagar o preço pela liberdade: ela carrega o peso de ser livre, enquanto seu povo vive aprisionado por ele mesmo. Entretanto, só assim ela poderia escrever a sua história. Só pagando o devido preço é que poderemos escrever a nossa própria história.



* Marjane escreveu Persepolis originalmente em 4 partes, e estas foram agrupadas em 2 volumes para serem publicadas nos EUA. Esta resenha foi baseada na edição americana, da Pantheon Books. Em 2002, ela venceu o Angoulême International Comics Festival Prize, um dos maiores premios para autores de histórias em quadrinhos do mundo, por este trabalho, que atualmente é citado ao lado de Maus, de Art Spiegelman e Palestina, de Joe Sacco como retratos fiéis da sociedade em tempos de guerra. Hoje ela ainda vive na França, trabalhando como ilustradora, e escreve esporadicamente para o NYT. Em 2007 espera-se o lançamento do filme Persepolis.





domingo, setembro 24, 2006

 

Pride of Baghdad









Pride of Baghdad
Brian Vaughan Niko Henrichon
Vertigo DC 2006


Pride of Baghdad é a mais nova história de Brian Vaughan, o ganhador do Eisner Award 2005 como melhor roteirista por Y: The Last Man (Vertigo DC) a minissérie de maior sucesso nos últimos tempos, Ex Machina (WildStorm/DC, Eisner Award 2005 best new serie); Runaways e Ultimate X-Men (Marvel).

Brian Vaughan saiu da NY University e escreveu histórias para grandes personagens, tanto da Marvel quando da DC, mas foi com seus próprios personagens em Y: The Last Man e Ex Machina que ele alcançou reconhecimento mundial e 2 Eisners Awards. Além disso, Y: The Last Man teve este ano seus direitos comprados pela New Line Cinema, e agora ele está trabalhando no roteiro. O Filme ainda não tem data para lançamento.

Enquanto esperamos, saiu uma nova graphic novel sua, publicada pelo selo Vertigo, com desenhos de Niko Henrichon:

Pride of Baghdad é uma história que fala de liberdade, dignidade e respeito, e questiona a natureza do homem, utilizando para tanto uma alegoria animal baseada em fatos reais. Em 2003, o bombardeio americano ao Iraque atinge não só a soberania e o povo iraquianos, mas também o Zoológico de Baghdad. Muitos animais são mortos por estilhaços de bombas e balas, mas os 4 leões: Zill, Safa, Noor e seu filhote Ali se vêem finalmente livres. Eles iniciam uma jornada de sobrevivência na nova selva urbana, em meio à guerra dos homens. Nessa jornada, terão que reaprender e, rápido, tudo o que esqueceram em seus anos de cativeiro, já que estão famintos, e não são mais tão velozes; e estão assustados, mas seus sentidos não estão mais tão aguçados. Além de terem inimigos desconhecidos pela frente, eles terão que descobrir como lidar com a repentina liberdade, antes apenas um sonho, e como preservar seus valores em meio a tantas adversidades.

Trata-se de uma história relativamente simples, porém emocionante, traz à tona diversas questões que havíamos há muito deixado para lá, talvez por acomodação, ou mesmo por vergonha de sermos humanos e termos nossas mesquinhas prioridades. Assim como em WE3 (Vertigo DC) , de Grant Morrison e Frank QUitely, a alegoria animal serve como pano de fundo para se refletir sobre o que é a verdadeira liberdade e qual é a natureza do homem. Pode a verdadeira liberdade ser imposta, ou ela deve ser conquistada? A questão adquire uma roupagem um tanto singular, quando relacionamos o caso dos leões libertos pelo bombardeio ao zôo ao fato de o bombardeio ter ocorrido em Baghdad e ter sido feito pelos americanos na ocasião da "libertação" do Iraque, e o que essa última representou verdadeiramente para o povo iraquiano. Talvez ainda não tenhamos essa resposta, talvez em alguns anos, os iraquianos possam nos contar mais a respeito, quando a verdadeira liberdade prevalecer.








domingo, agosto 13, 2006

 

Preacher










O Preacher e Garth Ennis
Garth Ennis e o Preacher



Garth Ennis (GE) conseguiu o que ninguém havia conseguido. O deus do Preacher me trouxe lógica à possibilidade da existência de deus e Jesus. é isso que acontece quando você lê ficção bem construída. Você termina e pensa: poxa mas faz sentido, não? Poderia ser desse jeito que aconteceu, não?

Bom, penas um ano após publicar a melhor Hellblazer já escrita (Dangerous Habits, Vertigo series 1994, Hellblazer 41-46 com Will Simpson) , ele nos apresentou o Preacher, um dos trabalhos que iriam coroar a sua já extensa carreira.

Opiniões e comparações à parte, Preacher é uma das mais conhecidas publicações do selo Vertigo da DC, e junto com Hellblazer, uma das que tornaram indiscutível a qualidade dessa vertente de quadrinhos com temas adultos (dark series). No entanto, há uma grande diferença entre elas: Hellblazer, apesar de ser um dos títulos mais lineares (publicado desde 1988 até hoje), teve muitas variações na equipe de roteiristas e desenhistas, o que, unfortunately, comprometeu a trajetória de John Constantine em alguns momentos. Já Preacher foi publicada de 1995 a 2000, em 66 números mensais, mais 5 especiais e uma minissérie de 4 números, todos perfeitos. Que não é fácil para um autor manter essa periodicidade e a linearidade do roteiro é um fato, mas Garth Ennis pode. E convenhamos, Preacher não seria Preacher se não tivesse sido desenhado por Steve Dillon, com capas de Glenn Fabry. Mas eu estou aqui para falar do roteiro em primeiro lugar.

Acredito que dentre os maiores méritos de Garth Ennis no Preacher estejam os universos de cada personagem, são tão completos, que é impossível não se envolver com as histórias de Jesse Custer, John Custer, Christina D'Angelle, Jesse's Grandma, Tulip O'Hare, Amy, Cassidy, Arseface, o Santo dos Assassinos, Herr Star, Deus, os diabos, Featherstone, até os diversos coadjuvantes como o Anjo e o Demônio pais do Genesis, e os anjos encarregados das burocracias do céu. E chega uma hora que estes universos particulares criados por Garth Ennis estendem seus braços e entrelaçam uns aos outros, assim como aos leitores, formando uma malha de ironia e passagens brilhantes em que, quem entra, não consegue mais se desvencilhar até o desfecho.


Sinopse

Briefly, o Reverendo Jesse Custer, um pastor sem rumo de uma cidade perdida do Texas, é atingido por uma força sobrenatural, porém certeira: o Genesis (uma força tão poderosa, gerada pela união proibida entre um anjo e um demônio, que ameaça até mesmo a hierarquia de deus no universo, e que sozinho não tem discernimento completo do que ele próprio é). Após o episódio, o reverendo passa a ter o dom da palavra. Genesis precisa de Jesse Custer para se consolidar longe do céu, local onde era mantido pelos guardiões burocráticos. E Jesse Custer agora está com a palavra divina. Na prática, isso significa que se ele falar para as pessoas contarem até 5600 bilhões, elas obedecerão milimetricamente do 1 até o 5600 bilhões, não importa o que aconteça. Jesse parte em busca de respostas para o que está ocorrendo, e no meio do caminho reencontra Tulip, sua antiga namorada, e Cassidy, um amigo um tanto quanto incomum. Ambos o acompanharão ao longo da história. A narrativa não se contenta em apresentar as encrencas em que os três se metem, mas também gera margem para discussão de uma gama enorme de temas como alienação religiosa (nem me perguntem por quê), política (disputa entre liberais e conservadores) e social (vaidades midiáticas, vícios de celebridades e preconceitos diversos) e valores como amor, amizade, família, justiça e lealdade.

Os problemas começam quando os anjos que deixaram Genesis escapar enviam o Santo dos Assassinos (o maior assassino de todos os tempos, que foi mandado de volta para a terra pois nem o inferno conseguiu lidar com ele*) em seu encalço, e a ele ninguém nunca sobreviveu. Isso é que são anjos hen! Além disso, Herr Star, um fanático militar de uma organização chamada O Graal planeja utilizar os poderes recém adquiridos por Jesse para trazer o Armagenon, ou o apocalipse à terra. Acontece que não será fácil para Jesse encontrar o que quer, já que Deus em pessoa, o único que poderia lhe dar as respostas, desapareceu de seu trono no céu desde que Genesis nasceu. Pois é pessoal, Deus fugiu, largou a terra e os fiéis à sua própria sorte, à mercê dos anjos preguiçosos. Não é à toa que está tudo um caos. Pode uma coisa dessas?

Além de ter personagens com universos bem construídos, O Preacher mostra de forma bastante plausível, eu diria, diversas referências à cultura, história, crenças e aos símbolos americanos, como o estilo cowboy do Texas (nada menos que John Wayne é o amigo imaginário de Jesse após a morte de seu pai), a inevitável guerra do Vietnã, a imigração nos EUA (Cassidy é irlandês), a disputa entre Liberais e Conservadores, e a vida em NYC (apesar de nem roteirista, nem desenhista serem americanos). O autor utiliza a veia sarcástica como poucos nas HQs, e faz críticas muito bem amarradas ao estilo americano de viver. Exemplo disso é a história do Arseface, um garoto filho de um xerife violento, que dá um tiro na própria cara tentando se matar, influenciado pelo suicídio de Kurt Cobain, fica deformado (por isso o nome, em português, cara de cu), e depois de rechaçado de todas as formas pela sociedade, acaba como ídolo popstar falido.


Em suma, frase clichê-de-fim-de-resenha: Preacher é uma obra obrigatória para fãs do universo Vertigo e uma obra de referência para autores de quadrinhos.





aiai é isso aí
vamo que vamo





segunda-feira, outubro 31, 2005

 






Quando a semana ja começa mal...










Eu disse ao meu irmão, que estava de tocaia na janela:

- Cuidado!!! Lá fora há dois terroristas.

Puxei-o para baixo, na tentativa de escondê-lo, mas não houve tempo. Eles nos viram e começaram a subir as escadas, gritando expressões em sua língua. As expressões lembravam gemidos de algum animal machucado. Os passos se aproximavam rapidamente. O nervosismo era tanto, e, por um momento, parecia que as próprias batidas do meu coração nos haviam denunciado. A respiração faltava.
A última coisa que pude fazer foi gritar para o outro rapaz, que me observava nervoso e tremia, sem ação:

- Vamos, porra! Passa essa arma pra mim caralho!!!

Foi só


Barulho de explosão, gritaria.
Um dos terroristas entrou no quarto, me pegou pelos cabelos e apertou sua carabina contra minha testa, murmurando palavras ininteligíveis. Eu, numa posição ruim, meio de joelhos, meio em pé, me retorci, buscando apoio em seu braço, mas o seu suor, misturado ao meu, me fazia ecorregar. Não adiantava falar nada. Não adiantava fazer nada.

Senti o metal frio machucando, e fechei os olhos quando ele disparou à queima roupa.

Depois disso, só me lembro de conversas, cheiro de cigarro misturado a algo muito podre, goteiras, vários corpos nus espalhados num lugar parecido com um grande esgoto.

Os terroristas continuavam falando alto e analisando os corpos, para ver se todos estavam mesmo mortos. Mutilaram vários. Então, um deles encontrou meu corpo, muito sujo, cabelos molhados, e começou, sorrindo, a arrancar minhas unhas, uma por uma, com um canivete de mão. Eu não sentia mais.

Por fim, tudo havia se acabado da forma que deveria ser.

Afinal, éramos humanos, e era assim que funcionava...







segunda-feira, setembro 12, 2005

 

O Extremista










O Extremista
Peter Milligan e Ted McKeever



Amoralidade e degradação em um mundo que nasceu perdido.




Milligan, conhecido roteirista do Universo Vertigo (Homem Animal, Enigma, Skreemer) se juntou ao desenhista mais caótico do mainstream americano (responsável por Eddie Pool, Survivor, e os mais famosos Superman Metropolis e Batman Nosferatu) para nos contar uma triste história, sobre a emergência dos instintos mais profundos em pessoas com a consciência rasa, pessoas lamentavelmente comuns. Como não poderia deixar de ser, as consequências são catastróficas. Transformações são sempre catastróficas e não são todos que estão preparados para isso. Alguns estão preparados e nem chegam a sabê-lo, até o momento do chamado.

O Extremista é Jack, que, cansado de uma rotina estúpida, acaba conhecendo um universo diferente, deliciosamente pervertido. Levado por Patrick, e pela fascinação que esse mundo proibido proporciona, passa por todos os tipos de experiências sexuais e sensoriais, num local em que o instinto comanda tudo: um clube denominado A Ordem. Os estímulos provocados por elas o levam cada vez mais fundo, para dentro de si mesmo, e do conhecimento de que matéria é, afinal, feito o homem. O passo extremo é deixar de ser Jack para tornar-se, finalmente, um Extremista, um assassino a serviço da Ordem, disposto a eliminar qualquer um que possa ameaçá-la.

No entanto, isto ele não consegue. O único fio que o ligava à velha realidade é Judy, sua limitada e fútil esposa. As sensações que ele experimentava eram embriagantes, no entanto, era necessário voltar para casa para sentir que tudo fazia sentido. No fim é o dilema ancestral: não precisar voltar para casa seria o fim de tudo aquilo que é proibido.

E quando Patrick insinua que a eliminação deste fio é o último passo necessário para que ele se deixe levar pelo mundo de degradação a que agora pertence, ele acorda, e percebe que não é o Extremista, nunca foi, nem nunca será. Judy, apesar das limitações, das futilidades, do cabelo ridiculamente tingido, ainda é o que importa.

Jack pagará um preço alto por ter se mantido fiel às suas convicções, e Judy, por sua vez, encontrará o novo mundo a sua espera quando decidir ir em busca de respostas, para entender por que o frio na barriga não a deixa mais dormir.


Cubram as apostas, revelem suas cartas e mostrem quem são vocês.





sexta-feira, agosto 19, 2005

 

"Remember, remember, the 5th of November..."





Writtng about V is such a responsability, and I have been thinking about this for weeks.
Why? V for Vendetta is too big, too strong. It has ideas, concepts, lessons to think for your hole life. One of the biggest stories already written. So lets go to my summary.





V for Vendetta, Alan Moore writer and David Lloyd illustrator

It was published originally from 1982 to 1985 in black and write by Warrior, an English Magazine, which closed before the last issue. Later, the authors were asked by DC Comics to finish the story and finally, in 1988, a color version was published in 10 editions, and was again published, as an entire graphic novel in United States by Vertigo seal, and in The United Kingdom by Titan Books.
In Brasil there are 2 editions: the first, a color version, by Globo Editora in 1989, and the second by Via Lettera, a black and white version.



London , 5th of November, 1997

We are in a future not so far, the third war left tracks for all over the world, and left England under control of a fascist single party, in an intolerant and totalitary way. We are talking about obscure times, in which the culture was destroyed, the information is strictly controlled and the knowledge is frozen. There is no freedom for people walking on the streets, because of the curfew, and it is a time of summary judgements, corruption, cameras in all the places, and widespread incredulity. There is a Queen, but the true leader governs using a computer called Fate, and has the structure of an organism which includes the components of the Head: eyes (cameras), nose (technical person), ears (microphones for phone calls), The mouth (Voice of Fate), and The Fingers (secret police).

In this context, a large explosion blows up The Parliament Houses, in a clearly terrorist act, and a rain of fireworks starts immediately, alighting the entire sky just for a few minutes. Its so magic to see. The fireworks are so beautiful and, at the same time, prohibited.

You can imagine that poor people who are not familiar with beautiful scenes, they can' t understand, but stay captivated for those few magic minutes. People damaged by unchanged day-by-day, by incredulity in a better future, and jammed by the fascists are suddenly surprised to witness a simple and beautiful event, out of the routine and the law. It's natural that distinct feelings arise: guilt (cause it's out of the law, but they can't stop looking at them), sadness (cause they are not familiar with beautiful scenes) , and deeper, something asleep, almost forgotten for a long time, starts to come back: the feeling of hope.

In fact it is a heartbreaking sequence, and in a way, V for Vendetta was like these fireworks to me.

On the other hand, the government investigators are concerned with discovering the unknown man who blew up one of the most prominents symbols of the governmental force, and consequently started to change the order carefully planned by the Party. They wanted to hide the running facts, but in some days, it would be impossible. After this, every single structure by which the regimen had kept was pulled down by well planned and inevitable terrorist acts, as dominoes lines carefully mounted tumbling sequentially:

"Poor dominoes. Your pretty empire took so long to built,
now, with a snap of history's fingers...
down it goes..."


The next attitudes of this misterious man (called codinom V by the investigators) will greatly influence who has any contact with him, directly or indirectly. And that's why we, readers with access to the mental universe of V, through his talkings with Evey Hammond, (a young 16 year old girl who was saved from rape by him, and brought to the Shadow Gallery), are influenced by him, more and more. We want to know more about V. We want to help V. We want to be V.

But who is V?
This is really a good question, with a lot of answers.

For Evey he answered:

"Me? I´m the king of the twentieth century. I´m the bogeyman. The villan....the black sheep of the family".


Is he a terrorist?
An Anihilator
An Anarchist?
Simply someone who uses the Guy Fawkes* mask?
Someone morally ambiguious and mentally disturbed?
The Lord of The Shadow Galery
The History?
The Villain?
The Victim?

Who is V?

First of all, V is an idea.
An idea which started to born in a camp for where the minority people were left: sick and old, black and comunist people and homossexuals. At this place, called Larkhill Resettlelment Camp, these people were submitted to in vivo experiments similar to Dr. Menghele's. They received a chemical substance in their blood and their reactions were observed in individual rooms. The patient of the 5th room (V in roman algarism) had different reactions, and doctors think that he was mentally and phisically abnormal as he didn't seem to interact with other patients or with the doctors. He seemed to be immersed in a particular world, always building geometric patterns with his room's objects, and more and more complex patterns came, so they drew the interest of one of the Doctors, Dra. Surridge, who started to study this patient's case carefully. Surridge became obsessed to see where these patterns could go, so she started to give more freedom to him, inside the camp.

V also is an idea which started to appear when the patient of the 5th room found a letter of another prisoner, already dead: Valerie, whose stretch I put here for you:

"I shall die here. Every last inch of me shall perish. Except one. An inch. It's small and it's fragile and it's the only thing in the world worth having. We must never lose it, or sell it, or give it away. We must never let them take it from us. I don't know who you are. Or whether you're a man or a woman. I may never see you or cry with you or get drunk with you. But I love you. I hope that you escape this place. I hope that the world turns and that things get better, and that one day people have roses again."


And then, the patient of the 5th room started to work as a gardener, and grew a beautiful garden of red roses. Roses grew into the cement and sadness of the poor patients. As a gardener, he had access to the components of fertilizants, and he stored a lot of them in his room. One day, there was a big explosion on Larkhill. Lots of people died, but the patient of the 5th room had escaped from the camp.

Thus, V was born with a clear revenge purpose, but not only the few who did the treatments at Larkhill. He wanted revenge from all, from the system which decided that he had arrested to that place. V thank so far. He didn't want to eliminate only a few things. He wanted to destroy everything, the roots of the system. He wanted the complete chaos, and then, to rebuild a new world. A world where humanity could make it's own choices (even if those choices were different from his choices), a world in which there was no place for the government nor for him, V.

If he got his point?

I really don't know. He left the choice for people. He never had an identity, but he knew that people had. That's why V is so different, a morally distinct character.

"Tomorrow, Downing Street will be destroyed, the Head, reduced to ruins, an end to what has gone before.Tonight you must choose what comes next. Lives for our own, or return to chains. Choose carefully.
...
and so Adieu."


What is correct, no one knows. Who in V's position would leave the decision to humanity? And that's why he was so different, he was completelly free of mundane thoughts. That's why I said that V is an idea as Evey said to him:

"If I take off that mask, something will go away forever, be diminished, because whoever you are isn't as big as the idea of you".


He was not simply a person like you or me.
He was V.



* Guy Fawkes was an English catholic radical who tried to blow up the Parliament Houses and kill King Jaime in 5th November1605. He was a rebel symbol who inspired Alan Moore to create V. Guy Fawkes appeared in 2002 between the 100 most important English person chosen by the public, near to David Beckhman, Aleister Crowley e Winston Churchill.

The phrase : "Remember, remember, the 5th of November, Gunpowder, treason and plot. We see no reason why, Gunpowder and treason, Should ever be forgot" is sang by children in England every 5th November.





quarta-feira, agosto 10, 2005

 

A survivor´s tale




Hoje é um dos dias D da minha vida.....mas eu não vou falar nisso agora. Tenho algo melhor.





Art Spiegelman poderia nem ter nascido. Mesmo. Eu diria que faltou muito pouco para ele não ser. Era tão fácil pra ele não ter nascido que formular a questão é inevitável: Será que ele pensou nisso quando escreveu Maus?
Pergunto porque as cirscunstâncias da vida são realmente incríveis. Imagine os diversos fatos que atravessam a existência de toda uma etnia em algum momento histórico: nascimento de uma identidade, aparecimento e desaparecimento de líderes,cultivo de uma religião, formação de uma cultura, tempos de miséria e abundância, guerras, e no meio, uma tentativa de extermínio. Imagine agora, todas as pessoas que poderiam não ter nascido em decorrência de tudo isso. E imagine o Art Spiegelman no meio dessa história. Não é muito improvável que ele estivesse por aqui hoje em dia, escrevendo para nós? Algumas pessoas diriam que é o destino, eu digo que é o acaso. E quão poderoso ele é. Isso vocês verão lendo Maus.


Maus é Rato em alemão. Nesta HQ, Art Spiegelman resolveu fazer uma alegoria: diferentes etnias como diferentes animais: poloneses são porcos, franceses são sapos, alemães são gatos, americanos são cães, suecos são renas, ciganos são traças, e judeus, bem, judeus são maus. Essa alegoria é um contraponto à propaganda nazistada época:

"Mickey Mouse é o ideal mais lamentável de que se tem notícia (...) As emoções sadias mostram a todo rapaz independente, todo jovem honrado, que um ser imundo e pestilento, o maior portador de bactérias do reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal (...) Abaixo a brutalização do povo propagada pelos judeus! Abaixo Mickey Mouse! Usem a suástica!" Artigo de jornal, Pomerânia, Alemanha, meados da década de 1930.

Várias histórias se entrelaçam enquanto o autor traça os caminhos que seus pais percorreram até chegar à sua existência: é a história de Vladek Spiegelman, um comerciante judeu que vivia tranquilo na Polônia (nas cidades de Radomsko, Czestochowa, Sosnowiec e Bielsko) até a segunda guerra estourar, e como ficou a vida da família durante a guerra, primeiro como marginais em seu próprio país e, mais tarde, como prisioneiros em Lublin, no gueto de Srodula, em Auschwitz, Gross Rosen e finalmente Dachau. A história de como perderam avós, irmãos, primos, filhos, vizinhos e conhecidos inevitavelmente, e sem ter tempo de pensar muito sobre a perda, pois poderiam, a qualquer momento ser os próximos. Por isso, também é a história do que uma guerra pode fazer aos envolvidos: ricos ou pobres, estudados ou ignorantes, jovens ou velhos, soldados ou civis, todos são reduzidos a um estado primitivo, no qual predomina o instinto de sobrevivência,o mais antigo de todos.

Vladek conta o que sentiu quando foi como soldado para a guerra e teve que atirar num homem. E quando teve que trabalhar como sapateiro para os nazistas quando era prisioneiro. E quando teve que comer madeira para fingir que era comida. E quando foi traído por amigos próximos. E quando aprendeu a dar valor a coisas outrora tão insignificantes: uma colher, um cinto, uma calça do seu tamanho...Ah são tantos relatos...cada passagem é única.

E Vladek conseguiu sobreviver. No entanto, um dos aspectos mais importantes que o autor deixa claro é que essa sobrevivência foi totalmente ao acaso. Qualquer um poderia ter morrido a qualquer momento. Alguns morreram, outros não, ao acaso. Portanto, não há heroísmo em quem sobreviveu, nem fraqueza em quem morreu. É tão e simplesmente época de guerra.

Como não poderia deixar de ser, Art Spiegelman também entra em seus conflitos internos e externos, sem dúvida um dos méritos maiores do livro.

Em Maus está a história completa que ele escreveu e desenhou sobre o suicídio de sua mãe, Anja Spiegelman: Prisoner on the Hell Planet. O que ele sentiu naquela noite, o que ele pensou, ninguém poderá ter uma noção verdadeira. Mas dá para se ter uma idéia.

Em Maus também ele mostra várias discussões que tem com o pai, devido às diferenças ideológicas, diferenças em estilo de vida, enfim, divergências sem solução, que tornam a convivência impossível porém necessária. Vocês devem saber do que estou falando. Em uma das passagens mais interessantes, ele explica como é difícil viver sendo o tempo inteiro comparado a uma foto (de um irmão morto quando ainda era uma criança durante a guerra), já que a foto é imutável, e, conseqüentemente, perfeita. Ele nunca seria tão perfeito quanto o irmão que morreu. Ele queria trabalhar com quadrinhos, enquanto o pai queria que ele fosse dentista.

E ele ganhou o Pulitzer Prize em 1992. Foi a única HQ que ganhou esse prêmio. Mas o seu maior mérito foi, sem dúvida, ter deixado Maus sair.

Nada mau para quem passou muito perto de não ter nascido


Maus
História Completa
Art Spiegelman
tradução de Antonio de Macedo Soares
Cia. das Letras








terça-feira, agosto 02, 2005

 

Who Watches the Watchmen




Bom estes dias eu terminei de ler Watchmen original em inglês, e sobre isso tenho algumas poucas palavras: foi a primeira obra completa de Alan Moore que eu li, e ainda estou perdida no meio dos detalhes (são infinitos). Fazer uma resenha de Watchmen é um desafio, mas vamolá, quero tentar...







Watchmen
Alan Moore writer
David Gibbons Illustrator/Letterer
John Higgins Colourist
DC Comics 1986 1987

winner of the Hugo Award

"This is the book that changed an industry and challenged a medium. If you´ve never read a graphic novel, then Watchmen is the one to start with. And even if you have, it´s time to read it again."

Preocupações com spoilers à parte, a história se passa nos anos 80, nos EUA.
A guerra do Vietnam acabou, e a guerra fria está começando. Os fatos giram em torno de um grupo de super-heróis que foi muito ativo na década de 60, inspirada por comics dos anos 30: Dr. Manhattan, the Comedian, Ozymandias, Nite Owl, Rorschach, Captain Metropolis, the Silk Spectre.

Em 1977, devido ao fato de que não havia real controle sobre os atos desses crimefighters, de modo que eles podiam agir acima da lei, entra em vigor o Keene Act, uma lei que obriga todos os super-heróis a se registrarem no governo. Muitos deles se aposentam nessa época, outros revelam suas identidades secretas, e outros permanecem trabalhando sob supervisão do governo americano. Em, suma, o grupo está desfeito, a população não acha que crimefighters mascarados sejam realmente necessários.

Quando ocorre o assassinato de Edward Blake, Rorschach, um dos Watchmen, que permanece atuando sozinho e utiliza métodos pouco aceitáveis, vai investigar o que houve, e descobre que Edward Blake era o Comedian, seu antigo colega. A partir daí, ele passa a procurar os antigos companheiros, pois acredita que este assassinato faz parte de uma conspiração para eliminar os crimefighters.

Um a um, os personagens são apresentados a nós, e o mais interessa é que eles são mostrados como super-heróis, mas não como os das comics que os inspiraram nos anos 30: não são pessoas que abrem mão de seus interesses, de sua vida para se dedicarem a salvar o próximo. Ao contrário. São como deuses do Olimpo: apesar de deuses, têm a alma humana, repleta de egoísmo, raiva, baixa auto estima, loucura, soberba, amoralidade e grandes ambições. À medida que cada personagem é apresentado a nós, ele se torna mais e mais humano, apesar de seu um super-herói.

Para vocês terem uma idéia disso, no grupo havia 3 homossexuais, e um deles (The Sillouette, ou Úrsula) é forçado a se retirar para preservar a imagem de todo o grupo perante a mídia.

Detalhes e aspectos intrínsecos à personalidade de cada um são minuciosamente analisados e aqui eu só vou citar o Rorschach, que foi, para mim, o mais interessante, e fica de exemplo para vocês terem uma noção do nível de detalhe que o AM usou.

Rorschach, como os outros super-heróis de Watchmen, tem sua raiz em um personagem de Steve Ditko (antigamente propriedade da Charlton Comics): : The Question, Steve como vcs sabem, é um dos criadores do Homem Aranha.
Seu nome real é Walter Joseph Kovacs, ele nasceu em 1940 e, nessa época, Silvia Kovacs, sua mãe, já era uma prostituta que não perdia oportunidades de lhe dizer o quanto ele era indesejado. Seu pai, um desconhecido cujo nome a própria mãe só sabe dizer que era Charlie, tornou-se um ícone para ele, ao lado do Presidente Truman. Quando Walter Kovacs tinha 10 anos, ele foi atacado na rua por dois garotos mais velhos, um deles jogou algo viscoso na sua cara, o ódio foi aumentando e (ele foi provocado "is your mom a hooker?") fez com que ele furasse o olho de um deles com o cigarro que este estava segurando. A partir daí ele é tido como problemático e enviado ao Lillian Charlton Home for Problem Children, onde se mostra retraído, porém estudioso (gosta de literatura e ensino religioso) e concentrado.

Na high school ele mesmo escreve uma carta ao presidente Truman elogiando o fato deste ter utilizado as bombas nucleares contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, justificando isso pelas bombas terem salvo vidas ao acabarem com a guerra. Aqui já fica delimitado como funciona o pensamento de Walter Kovacs.

Aos 16 anos, quando recebeu a notícia do brutal assassinato de sua mãe, ele apenas disse uma palavra: good.

Nessa mesma época ele encontra emprego em uma indústria de roupas. Lá ele conhece um novo tecido especial, criado por Dr. Manhatan: viscous fluid between two layers latex, heat and pressure sensitive. Um dia, uma cliente recusa um vestido com esse tecido, achando-o feio demais. Walter leva-o pra casa, ele não achou nada feio:"Black and white moving. Changing shape, but not mixing, no gray", formando manchas como no teste de Rorschach. Uma ocasião, ele vê um crime no New York Gazette: "raped. tortured. killed here. in NY. almost forty neighbors heard screams. Nobody did anything". Seu nome era Kitty Genovese e ele achou que era a mesma garota que havia recusado o vestido por achá-lo feio. Então ele recorta-o com tesoura quente e começa a usar isso como sua máscara. Kovacs havia se tornado Rorschach. Desde então ele começou a trabalhar com outro super-herói, Nite Owl, como crimefighter.

Em 1975, Rorschach procurava por uma garotinha de 6 anos sequestrada, e encontrou no local utilizado com esconderijo, que o raptor não só tinha assassinado a menina, como dado seus restos a seus dois cães sheepherds. Após este episódio, ele separa completamente as personalidades de Walter Kovacs e Rorschach: ele matou os dois cães, e depois que encontrou o raptor, amarrou-o e atirou querosene nele, botando fogo em seguida. Ficou assistindo a queima por mais ou menos uma hora. Sobre essa situação:

"It was Kovacs who closed his eyes. It was Rorschach who opened them again".

Em suma, Rorschach é Rorschach porque o mundo é mundo. Para ele, cada infração requer uma punição severa. Olho por olho, dente por dente. Doesn´t worry about the police, government, ou something like that. Criminosos devem pagar pelo que fizeram e podem ser torturados e mortos tendo esse objetivo em vista. Criminosos são criminosos e não humanos. Nesta linha de pensamento ele, nessas circunstâncias também um criminoso, está ali para fazê-los pagar. Rorschach é como o tecido da sua máscara: there´s no gray, there are only black and white. Um extremista, e um leitor assíduo de New Frontiersman.
Após o Keene act, em 1977, ele é o único Watchmen que continua seu trabalho a despeito do governo.

Bom, esta é a descrição (sucinta) de um dos Watchmen, por isso ficaria inviável um filme dele: imagine todo este universo individual (detalhado de cada personagem) transposto para 2 horas de filme....tsc tsc....é impossível sair algo minimamente aceitável.

Agora eu gostaria de citar o Tales of the Black Freighter. No capítulo 3 (The judge of all the earth) temos um pedaço de NY que sempre voltará aos quadrinhos nas mais diversas situações. Neste pedaço há uma banca de jornal com Bernie, o dono, divagando sobre as notícias do mundo, e Bernie, um moleque que sempre está sentado, lendo uma história em quadrinhos: Tales of the Black Freighter.

Ao longo de toda a narrativa, esta HQ dentro da HQ vai aparecendo em momentos oportunos o suficiente para nos mostrar analogias interessantes: por exemplo; Rorschach e Raw Shark. Tais analogias vão, futuramente, ser fortes o bastante para tirarmos várias conclusões acerca do destino de Rorschach e Ozymandias. Uma HQ dentro da HQ? Com esse componente metalinguístico, não à toa que Alan Moore foi alçado à categoria de escritor literário.

Um diálogo bem significativo em termos intimistas foi o da Laurie Juspeczyk (sim, aqui ela era Laurie Juspeczyk e não Silk Spectre II) com Dr. Manhattan, em marte, quando ele percebe que a vida humana é bem mais complexa que quarks, quando ele começa a enxergar a existência com o pouco de humanidade que restou dele, o que é significativo o suficiente para eu transcrevê-lo aqui:

LJ: my hole life is a joke. One big, stupid, meaningless...aw...shit...
Dr. M: I don´t think your life´s meaningless.
LJ: oh no, well, obviously that´s what you´re going to say because anything I´m stupid enough to believe is true, you just disagree with and...you don´t?
Dr. M: no.
LJ: but...listen, you´ve just been saying life is meaningless, so how you can...?
Dr. M: I changed my mind.
LJ: but why?
Dr. M: Thermodynamics miracles...events with odds against so astronomical they´re effectively impossible, like oxygen spontaneously becoming gold. I long to observe such a thing.
And yet, in each human coupling, a thousand million sperm vie for a single egg. Multiply those odds by countless generations, against the odds of your ancestors being alive, meeting, siring this precise son; that exact daughter...
untill your mother loves a man she has every reason to hate, and of that union, of the thousand million children competing for fertilization, it was you, only you, that emerged.
To distill so specific a form from that chaos of improbability, like turning air to gold...that is the crowning unlikelihood. The termodynamic miracle.
LJ: but...if my birth, if that´s a thermodynamic miracle...I mean, you could say that about anybody in the world.
Dr. M: yes. Anybody in the world.
But the world is so full of people, so crowded wih these miracles that they became commonplace, and we forget....I forget. We gaze continually at the world and it grows dull in our perceptions. Yet seen from anothe´s vantage point, as if new, it may still take the breath away.
Come...dry your eyes, for you are life, rarer than a quark and unpredictable beyond the dreams of Heisenberg - the clay in which the forces that shape all things leave their fingerprints most clearly.
Dry your eyes...
...and let´s go home.

ai ai
para terminar, Rorschach, Nite Owl, Silk Spectre II e Dr. Manhattan, ao investigarem a tal conspiração para eliminar os crimefighters, acabam se deparando com acontecimentos que alterarão completamente os rumos da humanidade. E ninguém nunca mais será o mesmo depois disso. Ou não.

E bem, Alan Moore me convenceu de que é o melhor roteirista da atualidade.
...
Já acabei de ler Maus e ela será objeto do próximo post.





sexta-feira, julho 29, 2005

 

Walk down the right back alley in Sin City and you can find anything"









Diferentemente de Batman (1989) e Spider Man (2002), que têm como principais atrativos os efeitos especiais, o que observamos em Sin City é uma ousada alteração na linguagem com que a história em quadrinhos é transposta para a tela.

Isso acontece, basicamente, por dois fatores primordiais:

1) Trata-se de uma história forte. Como o próprio Frank Miller disse, a história já estava viva antes de ser escrita. E, really, era uma história em quadrinhos. Ele começou a escrevê-la e ela mesma tomou forma e se fez, as personagens cresceram, ocuparam espaço e definiram seus próprios rumos.
E ele, bem, como todo bom autor... ele se deixou levar...
para nossa sorte....

O resultado de tudo, e aqui estou falando da História em quadrinhos e não do filme, são personagens fantásticos, loucura à flor da pele, em sequências eletrizantes e ultraviolentas, com finais surpreendentes, num jogo de luz e sombra e preto-e-branco que tornou Miller literalmente "o mestre das sombras". No entanto, nao só de preto e branco vive o autor. Ele é o "homem dos contrastes". Entre luz e sombra, e preto e branco? Sim, sim, mas também entre amor e ódio, id e superego, loucura e racionalidade, honestidade e desonestidade, moralidade e amoralidade, caráter e falta dele. Os dois lados da moeda são bem delimitados, porém, em Sin City todos demonstram que estão em cima do muro, se é que vocês me entendem. No fundo todos são borderlines, dependendo das circunstâncias as nuances se manifestam mais ou menos.

2) Frank Miller e Robert Rodriguez fizeram o filme porque ELES queriam ver o resultado, e não para vender um produto. Eles não precisavam dar satisfações a ninguém, e muito menos limitar sua expressão às exigências de mercado (não que eu esteja criticando o mercado de blockbusters, mas um filme como Sin City nunca iria sair do jeito que saiu se estivesse sujeito às pesquisas de opinião de grandes produtoras). Isso mesmo, o filme, como a história em quadrinhos, queria sair.


Agora aspectos de meros telespectadores:

Na sala 1 do Espaço Unibanco, o nervoso aumenta quando tudo atrasa. E, quando a tela acende e as luzes se apagam, nós já estamos comendo a pipoca sem nem ao menos sentir seu gosto. E então....e então....

...

Em primeiro lugar, nos deparamos com o curta que RR inicialmente preparou para tentar convencer Frank Miller (que já tinha recusado convites de Spielberg e Sam Raimi) a deixá-lo filmar um de seus roteiros. Bem, confiram por vcs mesmos por que Robert Rodriguez conseguiu convencê-lo.

Neste momento, todo o trabalho dos diretores já se revela: no jogo de luzes, no preto-e-branco, nas sequências feitas quadro a quadro, nos diálogos cuidadosamente escolhidos, no cenário, nas atuações, na chuva, no sangue, na trilha sonora (feita pelo proprio Rodriguez e merecedora de atenção), pouco a pouco, o clima da Cidade do Pecado toma conta do cinema, e nós, espectadores e admiradores de quadrinhos sentimos, por um instante, que afinal sabemos por que existimos.
ah fellas......

A seguir, temos o desenrolar das três histórias escolhidas para este primeiro filme:

EmThe Hard Goodbye, o insano Marv (Mickey Rourke) tenta encontrar os assassinos de sua deusa Goldie (Jaime King). Já em The Big Fat Kill o loser Dwight McCarthy (Clive Owen) se desentende com Jackie Boy (Benicio Del Toro), por causa da garçonete Shellie (Brittany Murphy), e, auxiliado por Miho (Devon Aoki), tenta manter a polícia longe do local onde suas amigas prostitutas, chefiadas por Gail (Rosario Dawson) fazem suas próprias leis há tempos. Nesta história temos a cena que Quentin Tarantino dirigiu, quando Dwight conversa com Jackie Boy dentro do carro; e, por fim, em That Yellow Bastard, o veterano policial John Hartigan (Bruce Willis) tenta proteger sua única amiga, Nancy Callahan (Jessica Alba), das garras do assassino amarelo (Nick Stahl)

Sin City é uma cidade de loucos, onde as coisas acontecem à noite, portanto, não espere pessoas e situações normais.
Este filme vai marcar época.
Se você não acredita nisso, acredite nas Histórias em Quadrinhos.