domingo, agosto 13, 2006
Preacher

Garth Ennis e o Preacher
Garth Ennis (GE) conseguiu o que ninguém havia conseguido. O deus do Preacher me trouxe lógica à possibilidade da existência de deus e Jesus. é isso que acontece quando você lê ficção bem construída. Você termina e pensa: poxa mas faz sentido, não? Poderia ser desse jeito que aconteceu, não?
Bom, penas um ano após publicar a melhor Hellblazer já escrita (Dangerous Habits, Vertigo series 1994, Hellblazer 41-46 com Will Simpson) , ele nos apresentou o Preacher, um dos trabalhos que iriam coroar a sua já extensa carreira.
Opiniões e comparações à parte, Preacher é uma das mais conhecidas publicações do selo Vertigo da DC, e junto com Hellblazer, uma das que tornaram indiscutível a qualidade dessa vertente de quadrinhos com temas adultos (dark series). No entanto, há uma grande diferença entre elas: Hellblazer, apesar de ser um dos títulos mais lineares (publicado desde 1988 até hoje), teve muitas variações na equipe de roteiristas e desenhistas, o que, unfortunately, comprometeu a trajetória de John Constantine em alguns momentos. Já Preacher foi publicada de 1995 a 2000, em 66 números mensais, mais 5 especiais e uma minissérie de 4 números, todos perfeitos. Que não é fácil para um autor manter essa periodicidade e a linearidade do roteiro é um fato, mas Garth Ennis pode. E convenhamos, Preacher não seria Preacher se não tivesse sido desenhado por Steve Dillon, com capas de Glenn Fabry. Mas eu estou aqui para falar do roteiro em primeiro lugar.
Acredito que dentre os maiores méritos de Garth Ennis no Preacher estejam os universos de cada personagem, são tão completos, que é impossível não se envolver com as histórias de Jesse Custer, John Custer, Christina D'Angelle, Jesse's Grandma, Tulip O'Hare, Amy, Cassidy, Arseface, o Santo dos Assassinos, Herr Star, Deus, os diabos, Featherstone, até os diversos coadjuvantes como o Anjo e o Demônio pais do Genesis, e os anjos encarregados das burocracias do céu. E chega uma hora que estes universos particulares criados por Garth Ennis estendem seus braços e entrelaçam uns aos outros, assim como aos leitores, formando uma malha de ironia e passagens brilhantes em que, quem entra, não consegue mais se desvencilhar até o desfecho.
Sinopse
Briefly, o Reverendo Jesse Custer, um pastor sem rumo de uma cidade perdida do Texas, é atingido por uma força sobrenatural, porém certeira: o Genesis (uma força tão poderosa, gerada pela união proibida entre um anjo e um demônio, que ameaça até mesmo a hierarquia de deus no universo, e que sozinho não tem discernimento completo do que ele próprio é). Após o episódio, o reverendo passa a ter o dom da palavra. Genesis precisa de Jesse Custer para se consolidar longe do céu, local onde era mantido pelos guardiões burocráticos. E Jesse Custer agora está com a palavra divina. Na prática, isso significa que se ele falar para as pessoas contarem até 5600 bilhões, elas obedecerão milimetricamente do 1 até o 5600 bilhões, não importa o que aconteça. Jesse parte em busca de respostas para o que está ocorrendo, e no meio do caminho reencontra Tulip, sua antiga namorada, e Cassidy, um amigo um tanto quanto incomum. Ambos o acompanharão ao longo da história. A narrativa não se contenta em apresentar as encrencas em que os três se metem, mas também gera margem para discussão de uma gama enorme de temas como alienação religiosa (nem me perguntem por quê), política (disputa entre liberais e conservadores) e social (vaidades midiáticas, vícios de celebridades e preconceitos diversos) e valores como amor, amizade, família, justiça e lealdade.
Os problemas começam quando os anjos que deixaram Genesis escapar enviam o Santo dos Assassinos (o maior assassino de todos os tempos, que foi mandado de volta para a terra pois nem o inferno conseguiu lidar com ele*) em seu encalço, e a ele ninguém nunca sobreviveu. Isso é que são anjos hen! Além disso, Herr Star, um fanático militar de uma organização chamada O Graal planeja utilizar os poderes recém adquiridos por Jesse para trazer o Armagenon, ou o apocalipse à terra. Acontece que não será fácil para Jesse encontrar o que quer, já que Deus em pessoa, o único que poderia lhe dar as respostas, desapareceu de seu trono no céu desde que Genesis nasceu. Pois é pessoal, Deus fugiu, largou a terra e os fiéis à sua própria sorte, à mercê dos anjos preguiçosos. Não é à toa que está tudo um caos. Pode uma coisa dessas?
Além de ter personagens com universos bem construídos, O Preacher mostra de forma bastante plausível, eu diria, diversas referências à cultura, história, crenças e aos símbolos americanos, como o estilo cowboy do Texas (nada menos que John Wayne é o amigo imaginário de Jesse após a morte de seu pai), a inevitável guerra do Vietnã, a imigração nos EUA (Cassidy é irlandês), a disputa entre Liberais e Conservadores, e a vida em NYC (apesar de nem roteirista, nem desenhista serem americanos). O autor utiliza a veia sarcástica como poucos nas HQs, e faz críticas muito bem amarradas ao estilo americano de viver. Exemplo disso é a história do Arseface, um garoto filho de um xerife violento, que dá um tiro na própria cara tentando se matar, influenciado pelo suicídio de Kurt Cobain, fica deformado (por isso o nome, em português, cara de cu), e depois de rechaçado de todas as formas pela sociedade, acaba como ídolo popstar falido.
Em suma, frase clichê-de-fim-de-resenha: Preacher é uma obra obrigatória para fãs do universo Vertigo e uma obra de referência para autores de quadrinhos.
aiai é isso aí
vamo que vamo

