quarta-feira, agosto 10, 2005
A survivor´s tale
Hoje é um dos dias D da minha vida.....mas eu não vou falar nisso agora. Tenho algo melhor.

Art Spiegelman poderia nem ter nascido. Mesmo. Eu diria que faltou muito pouco para ele não ser. Era tão fácil pra ele não ter nascido que formular a questão é inevitável: Será que ele pensou nisso quando escreveu Maus?
Pergunto porque as cirscunstâncias da vida são realmente incríveis. Imagine os diversos fatos que atravessam a existência de toda uma etnia em algum momento histórico: nascimento de uma identidade, aparecimento e desaparecimento de líderes,cultivo de uma religião, formação de uma cultura, tempos de miséria e abundância, guerras, e no meio, uma tentativa de extermínio. Imagine agora, todas as pessoas que poderiam não ter nascido em decorrência de tudo isso. E imagine o Art Spiegelman no meio dessa história. Não é muito improvável que ele estivesse por aqui hoje em dia, escrevendo para nós? Algumas pessoas diriam que é o destino, eu digo que é o acaso. E quão poderoso ele é. Isso vocês verão lendo Maus.
Maus é Rato em alemão. Nesta HQ, Art Spiegelman resolveu fazer uma alegoria: diferentes etnias como diferentes animais: poloneses são porcos, franceses são sapos, alemães são gatos, americanos são cães, suecos são renas, ciganos são traças, e judeus, bem, judeus são maus. Essa alegoria é um contraponto à propaganda nazistada época:
"Mickey Mouse é o ideal mais lamentável de que se tem notícia (...) As emoções sadias mostram a todo rapaz independente, todo jovem honrado, que um ser imundo e pestilento, o maior portador de bactérias do reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal (...) Abaixo a brutalização do povo propagada pelos judeus! Abaixo Mickey Mouse! Usem a suástica!" Artigo de jornal, Pomerânia, Alemanha, meados da década de 1930.
Várias histórias se entrelaçam enquanto o autor traça os caminhos que seus pais percorreram até chegar à sua existência: é a história de Vladek Spiegelman, um comerciante judeu que vivia tranquilo na Polônia (nas cidades de Radomsko, Czestochowa, Sosnowiec e Bielsko) até a segunda guerra estourar, e como ficou a vida da família durante a guerra, primeiro como marginais em seu próprio país e, mais tarde, como prisioneiros em Lublin, no gueto de Srodula, em Auschwitz, Gross Rosen e finalmente Dachau. A história de como perderam avós, irmãos, primos, filhos, vizinhos e conhecidos inevitavelmente, e sem ter tempo de pensar muito sobre a perda, pois poderiam, a qualquer momento ser os próximos. Por isso, também é a história do que uma guerra pode fazer aos envolvidos: ricos ou pobres, estudados ou ignorantes, jovens ou velhos, soldados ou civis, todos são reduzidos a um estado primitivo, no qual predomina o instinto de sobrevivência,o mais antigo de todos.
Vladek conta o que sentiu quando foi como soldado para a guerra e teve que atirar num homem. E quando teve que trabalhar como sapateiro para os nazistas quando era prisioneiro. E quando teve que comer madeira para fingir que era comida. E quando foi traído por amigos próximos. E quando aprendeu a dar valor a coisas outrora tão insignificantes: uma colher, um cinto, uma calça do seu tamanho...Ah são tantos relatos...cada passagem é única.
E Vladek conseguiu sobreviver. No entanto, um dos aspectos mais importantes que o autor deixa claro é que essa sobrevivência foi totalmente ao acaso. Qualquer um poderia ter morrido a qualquer momento. Alguns morreram, outros não, ao acaso. Portanto, não há heroísmo em quem sobreviveu, nem fraqueza em quem morreu. É tão e simplesmente época de guerra.
Como não poderia deixar de ser, Art Spiegelman também entra em seus conflitos internos e externos, sem dúvida um dos méritos maiores do livro.
Em Maus está a história completa que ele escreveu e desenhou sobre o suicídio de sua mãe, Anja Spiegelman: Prisoner on the Hell Planet. O que ele sentiu naquela noite, o que ele pensou, ninguém poderá ter uma noção verdadeira. Mas dá para se ter uma idéia.
Em Maus também ele mostra várias discussões que tem com o pai, devido às diferenças ideológicas, diferenças em estilo de vida, enfim, divergências sem solução, que tornam a convivência impossível porém necessária. Vocês devem saber do que estou falando. Em uma das passagens mais interessantes, ele explica como é difícil viver sendo o tempo inteiro comparado a uma foto (de um irmão morto quando ainda era uma criança durante a guerra), já que a foto é imutável, e, conseqüentemente, perfeita. Ele nunca seria tão perfeito quanto o irmão que morreu. Ele queria trabalhar com quadrinhos, enquanto o pai queria que ele fosse dentista.
E ele ganhou o Pulitzer Prize em 1992. Foi a única HQ que ganhou esse prêmio. Mas o seu maior mérito foi, sem dúvida, ter deixado Maus sair.
Nada mau para quem passou muito perto de não ter nascido
Maus
História Completa
Art Spiegelman
tradução de Antonio de Macedo Soares
Cia. das Letras

