quarta-feira, junho 08, 2005
Por que, afinal, ler WE3

A dupla Grant Morrison e Frank Quitely já havia trabalhado junta em HQ´s como New X-Men em 2002. Eles também foram editores da JLA Earth2, tb de 2002. Além disso, Quitely já fez séries de sucesso como The Authority, com Mark Millar (Ultimates e Ultimate X-Men, Monstro do Pântano, e recentemente Wanted), e esteve em Sandman Endless Nights, com Neil Gaiman.
Morrison dispensa apresentações já que reading Grant Morrison makes you irresistible.
E ok ok eles também participaram de um trabalho de vanguarda, com John Romita Jr., e este trabalho é Nuff Said TPB, no qual o presidente da Marvel, Bill Jemas, e seu editor chefe, Joe Quesada propuseram um teste aos maiorais da Marvel: "se vocês são os melhores artistas e roteiristas, nós os desafiamos a contar uma história utilizando apenas imagens". (parágrafo retirado do Omelete).
Tudo isso pra falar que ok ok esses caras têm currículo, ok esses caras são criativos, ok esses caras são os caras.... massssss como é que diabos eles puderam conceber algo como WE3?
É simplesmente a HQ mais inovadora que eu li nos últimos anos. É chocking, é inusitada, complexa, violenta ao extremo, e, ao mesmo tempo, é triste e melancólica e simples.
A explicação de que, em New X-Men eles não poderiam exercitar toda a sua imaginação devido à censura (para maiores de 12 anos), ao passo que, em WE3, por ser um legítimo título do universo Vertigo, eles puderam extrapolar não pode ser o único fato que colaborou para o surgimento desta obra.
A história é inovadora, primeiramente pelo ponto de vista sob o qual ela é desenvolvida: trata-se do ponto de vista de 3 animais: um "mixed" labrador caramelo, um gato e um coelho. Estes animais fofos são retirados de seus habitats domésticos, onde possuem carinho, calor humano e comida, e são submetidos a experimentos em que têm suas funções vitais alteradas. Mutilados, são transformados em ciborgues assassinos para utilização do exército americano, que planeja enviá-los para serviços que hoje envolvem a morte de diversos soldados, num complexo projeto denominado Animal Weapon 3, mas o ponto de vista continua sendo o de singelos animais de estimação. Eles tomam medicamentos para manutenção de seus organismos, mas continuam pensando em carne, leite e capim, e tendo sensações como fome, sede, frio, carência, solidão. E é claro que, em sua natureza inocente, consideram o homem, um ser egoísta e munido de sede de poder ilimitado, e que os mutilou brutalmente, o seu melhor amigo.
Apesar de toda a solidão, apesar de toda a dor, de toda a tensão, eles querem estar próximos do homem. Pelas mãos do homem, vivem presos em um laboratório minúsculo, imobilizados e alimentados artificialmente, e, no entanto, quando alcançam o campo, as florestas (em cenários magnificamente e detalhadamente desenhados), a liberdade, enfim, ainda assim sentem-se perdidos e querem voltar para casa, querem abrigo, sofrem com a distância do conhecido. E isso chega a doer na gente fellas. Livres, porém perdidos. É, quem diria que a liberdade também pode ser dolorosa. Quem é livre sabe o preço disso.
E as palavras deles, como podem ser tão simples e dizer tanto sobre a nossa natureza?
"Casa? onde é a casa?
Casa é não ter que correr mais."
Na sua simplicidade de pensamento, esses animais ainda são mais humanos que os próprios humanos. O roteiro mostra a velha discussão: o homem cria os problemas e depois não sabe resolver. O homem cria os seus próprios monstros e depois não sabe como lidar com eles. Na história, não só o homem é extremamente limitado em pensamento e em caráter, como também sua imagem é mostrada totalmente fragmentada, sem rosto, sem personalidade, enfim...um homem genérico. Nada mais verdadeiro. E justamente por isso nós chegamos a odiá-los, odiarmos a nós mesmos por sermos tão podres, tão pobres. Eu fiquei mal a tarde inteira depois de ler. Eu olhei a Mimi, minha gatinha inocente e quis chorar.
Essa História tem muito a oferecer, não só pelo conteúdo moral que Grant Morrison nos trouxe, mas as imagens criadas por Frank Quitely se superaram, a tal ponto que eu (que nunca presto muita atenção a desenhos, devo confessar), fiquei impressionada com as seqüências em perspectiva, os mini quadros e os ângulos que ele utilizou. Eu nunca tinha visto algo assim, digo, nada desse tipo tinha chamado tanto a minha atenção. A simbiose de Quitely com Jamie Grant, o colorista, é total. Morrison dá o sentido. Eles transmitem a idéia, eles fazem a arte. Parece que os cérebros dos 3 funcionam juntos.
WE3 são eles.
E vcs não podem perder.
WE3 (ainda) não está à venda no Brasil, mas na Amazon vc pode adquiri-la por U$ 10,39 mais frete. Vale cada centavo.

