terça-feira, agosto 02, 2005
Who Watches the Watchmen
Bom estes dias eu terminei de ler Watchmen original em inglês, e sobre isso tenho algumas poucas palavras: foi a primeira obra completa de Alan Moore que eu li, e ainda estou perdida no meio dos detalhes (são infinitos). Fazer uma resenha de Watchmen é um desafio, mas vamolá, quero tentar...

Watchmen
Alan Moore writer
David Gibbons Illustrator/Letterer
John Higgins Colourist
DC Comics 1986 1987
winner of the Hugo Award
"This is the book that changed an industry and challenged a medium. If you´ve never read a graphic novel, then Watchmen is the one to start with. And even if you have, it´s time to read it again."
Preocupações com spoilers à parte, a história se passa nos anos 80, nos EUA.
A guerra do Vietnam acabou, e a guerra fria está começando. Os fatos giram em torno de um grupo de super-heróis que foi muito ativo na década de 60, inspirada por comics dos anos 30: Dr. Manhattan, the Comedian, Ozymandias, Nite Owl, Rorschach, Captain Metropolis, the Silk Spectre.
Em 1977, devido ao fato de que não havia real controle sobre os atos desses crimefighters, de modo que eles podiam agir acima da lei, entra em vigor o Keene Act, uma lei que obriga todos os super-heróis a se registrarem no governo. Muitos deles se aposentam nessa época, outros revelam suas identidades secretas, e outros permanecem trabalhando sob supervisão do governo americano. Em, suma, o grupo está desfeito, a população não acha que crimefighters mascarados sejam realmente necessários.
Quando ocorre o assassinato de Edward Blake, Rorschach, um dos Watchmen, que permanece atuando sozinho e utiliza métodos pouco aceitáveis, vai investigar o que houve, e descobre que Edward Blake era o Comedian, seu antigo colega. A partir daí, ele passa a procurar os antigos companheiros, pois acredita que este assassinato faz parte de uma conspiração para eliminar os crimefighters.
Um a um, os personagens são apresentados a nós, e o mais interessa é que eles são mostrados como super-heróis, mas não como os das comics que os inspiraram nos anos 30: não são pessoas que abrem mão de seus interesses, de sua vida para se dedicarem a salvar o próximo. Ao contrário. São como deuses do Olimpo: apesar de deuses, têm a alma humana, repleta de egoísmo, raiva, baixa auto estima, loucura, soberba, amoralidade e grandes ambições. À medida que cada personagem é apresentado a nós, ele se torna mais e mais humano, apesar de seu um super-herói.
Para vocês terem uma idéia disso, no grupo havia 3 homossexuais, e um deles (The Sillouette, ou Úrsula) é forçado a se retirar para preservar a imagem de todo o grupo perante a mídia.
Detalhes e aspectos intrínsecos à personalidade de cada um são minuciosamente analisados e aqui eu só vou citar o Rorschach, que foi, para mim, o mais interessante, e fica de exemplo para vocês terem uma noção do nível de detalhe que o AM usou.
Rorschach, como os outros super-heróis de Watchmen, tem sua raiz em um personagem de Steve Ditko (antigamente propriedade da Charlton Comics): : The Question, Steve como vcs sabem, é um dos criadores do Homem Aranha.
Seu nome real é Walter Joseph Kovacs, ele nasceu em 1940 e, nessa época, Silvia Kovacs, sua mãe, já era uma prostituta que não perdia oportunidades de lhe dizer o quanto ele era indesejado. Seu pai, um desconhecido cujo nome a própria mãe só sabe dizer que era Charlie, tornou-se um ícone para ele, ao lado do Presidente Truman. Quando Walter Kovacs tinha 10 anos, ele foi atacado na rua por dois garotos mais velhos, um deles jogou algo viscoso na sua cara, o ódio foi aumentando e (ele foi provocado "is your mom a hooker?") fez com que ele furasse o olho de um deles com o cigarro que este estava segurando. A partir daí ele é tido como problemático e enviado ao Lillian Charlton Home for Problem Children, onde se mostra retraído, porém estudioso (gosta de literatura e ensino religioso) e concentrado.
Na high school ele mesmo escreve uma carta ao presidente Truman elogiando o fato deste ter utilizado as bombas nucleares contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, justificando isso pelas bombas terem salvo vidas ao acabarem com a guerra. Aqui já fica delimitado como funciona o pensamento de Walter Kovacs.
Aos 16 anos, quando recebeu a notícia do brutal assassinato de sua mãe, ele apenas disse uma palavra: good.
Nessa mesma época ele encontra emprego em uma indústria de roupas. Lá ele conhece um novo tecido especial, criado por Dr. Manhatan: viscous fluid between two layers latex, heat and pressure sensitive. Um dia, uma cliente recusa um vestido com esse tecido, achando-o feio demais. Walter leva-o pra casa, ele não achou nada feio:"Black and white moving. Changing shape, but not mixing, no gray", formando manchas como no teste de Rorschach. Uma ocasião, ele vê um crime no New York Gazette: "raped. tortured. killed here. in NY. almost forty neighbors heard screams. Nobody did anything". Seu nome era Kitty Genovese e ele achou que era a mesma garota que havia recusado o vestido por achá-lo feio. Então ele recorta-o com tesoura quente e começa a usar isso como sua máscara. Kovacs havia se tornado Rorschach. Desde então ele começou a trabalhar com outro super-herói, Nite Owl, como crimefighter.
Em 1975, Rorschach procurava por uma garotinha de 6 anos sequestrada, e encontrou no local utilizado com esconderijo, que o raptor não só tinha assassinado a menina, como dado seus restos a seus dois cães sheepherds. Após este episódio, ele separa completamente as personalidades de Walter Kovacs e Rorschach: ele matou os dois cães, e depois que encontrou o raptor, amarrou-o e atirou querosene nele, botando fogo em seguida. Ficou assistindo a queima por mais ou menos uma hora. Sobre essa situação:
"It was Kovacs who closed his eyes. It was Rorschach who opened them again".
Em suma, Rorschach é Rorschach porque o mundo é mundo. Para ele, cada infração requer uma punição severa. Olho por olho, dente por dente. Doesn´t worry about the police, government, ou something like that. Criminosos devem pagar pelo que fizeram e podem ser torturados e mortos tendo esse objetivo em vista. Criminosos são criminosos e não humanos. Nesta linha de pensamento ele, nessas circunstâncias também um criminoso, está ali para fazê-los pagar. Rorschach é como o tecido da sua máscara: there´s no gray, there are only black and white. Um extremista, e um leitor assíduo de New Frontiersman.
Após o Keene act, em 1977, ele é o único Watchmen que continua seu trabalho a despeito do governo.
Bom, esta é a descrição (sucinta) de um dos Watchmen, por isso ficaria inviável um filme dele: imagine todo este universo individual (detalhado de cada personagem) transposto para 2 horas de filme....tsc tsc....é impossível sair algo minimamente aceitável.
Agora eu gostaria de citar o Tales of the Black Freighter. No capítulo 3 (The judge of all the earth) temos um pedaço de NY que sempre voltará aos quadrinhos nas mais diversas situações. Neste pedaço há uma banca de jornal com Bernie, o dono, divagando sobre as notícias do mundo, e Bernie, um moleque que sempre está sentado, lendo uma história em quadrinhos: Tales of the Black Freighter.
Ao longo de toda a narrativa, esta HQ dentro da HQ vai aparecendo em momentos oportunos o suficiente para nos mostrar analogias interessantes: por exemplo; Rorschach e Raw Shark. Tais analogias vão, futuramente, ser fortes o bastante para tirarmos várias conclusões acerca do destino de Rorschach e Ozymandias. Uma HQ dentro da HQ? Com esse componente metalinguístico, não à toa que Alan Moore foi alçado à categoria de escritor literário.
Um diálogo bem significativo em termos intimistas foi o da Laurie Juspeczyk (sim, aqui ela era Laurie Juspeczyk e não Silk Spectre II) com Dr. Manhattan, em marte, quando ele percebe que a vida humana é bem mais complexa que quarks, quando ele começa a enxergar a existência com o pouco de humanidade que restou dele, o que é significativo o suficiente para eu transcrevê-lo aqui:
LJ: my hole life is a joke. One big, stupid, meaningless...aw...shit...
Dr. M: I don´t think your life´s meaningless.
LJ: oh no, well, obviously that´s what you´re going to say because anything I´m stupid enough to believe is true, you just disagree with and...you don´t?
Dr. M: no.
LJ: but...listen, you´ve just been saying life is meaningless, so how you can...?
Dr. M: I changed my mind.
LJ: but why?
Dr. M: Thermodynamics miracles...events with odds against so astronomical they´re effectively impossible, like oxygen spontaneously becoming gold. I long to observe such a thing.
And yet, in each human coupling, a thousand million sperm vie for a single egg. Multiply those odds by countless generations, against the odds of your ancestors being alive, meeting, siring this precise son; that exact daughter...
untill your mother loves a man she has every reason to hate, and of that union, of the thousand million children competing for fertilization, it was you, only you, that emerged.
To distill so specific a form from that chaos of improbability, like turning air to gold...that is the crowning unlikelihood. The termodynamic miracle.
LJ: but...if my birth, if that´s a thermodynamic miracle...I mean, you could say that about anybody in the world.
Dr. M: yes. Anybody in the world.
But the world is so full of people, so crowded wih these miracles that they became commonplace, and we forget....I forget. We gaze continually at the world and it grows dull in our perceptions. Yet seen from anothe´s vantage point, as if new, it may still take the breath away.
Come...dry your eyes, for you are life, rarer than a quark and unpredictable beyond the dreams of Heisenberg - the clay in which the forces that shape all things leave their fingerprints most clearly.
Dry your eyes...
...and let´s go home.
ai ai
para terminar, Rorschach, Nite Owl, Silk Spectre II e Dr. Manhattan, ao investigarem a tal conspiração para eliminar os crimefighters, acabam se deparando com acontecimentos que alterarão completamente os rumos da humanidade. E ninguém nunca mais será o mesmo depois disso. Ou não.
E bem, Alan Moore me convenceu de que é o melhor roteirista da atualidade.
...
Já acabei de ler Maus e ela será objeto do próximo post.

