Álcool com açúcar

Insonidades, livros, quadrinhos e os dramas da vida cotidiana

quinta-feira, novembro 23, 2006

 

O preço da liberdade











Persepolis 1, 2, 3 4 (nos EUA, 1 e 2)*
Marjane Satrapi
publicados entre 2000 e 2003


O preço da liberdade

Ler Persépolis no Japão é uma experiência e tanto. Não só porque estou totalmente sozinha e com saudades de casa aqui, mas também porque estou triste, e quando isso acontece, em meio a tanto estresse e problemas com trabalho, ler comics é uma forma de recolocar a cabeça no lugar, repensar a vida e adquirir forças com a experiência de outras pessoas. Persépolis é um grande aprendizado.


Marjane Satrapi nasceu em Rasht, Iran, numa família de classe alta. Filha única em um país onde as mulheres são consideradas como a grama, e os homens como a terra (desta forma, as mulheres pertenceriam aos homens, por originarem deles), ela teve a sorte de ser educada com todo o cuidado de forma progressista pelos pais, para ser uma mulher independente, apesar da familia viver sob um regime onde o peso da tradição é muito grande para ser ignorado por qualquer um que seja. Estudou no Liceu Francês, em Teerã, teve acesso a todo tipo de literatura proibida e discussão política na época, e na infância, atravessou momentos cruciais de seu país, como a queda do Xa Reza Pahlavi, a ascensão da revolução xiita e do Ayatollah Khomeinii e por fim, já na adolescência, a guerra Iran-Iraque.

Todas essas situações estão descritas em detalhes em Persépolis 1- a história de uma infância e a sua riqueza não se deve apenas ao fato de a autora ter sido criada numa casa onde prevalecia a educação, e os pais mantinham a liberdade de pensamento acima de tudo, mas também devido ao fato de possuir uma interpretação muito particular: de criança culta, que aprendeu na pele o quanto era ruim ter heróis na família (no início, ela achava bonito dizer na escola que os tios eram heróis, mas fatalmente descobriu que os heróis morriam na prisão e seus corpos nunca retornavam aos parentes). Com o advento da revolução xiita, Satrapi foi enviada sozinha aos 14 anos para Vienna, Austria, para não ser presa na escola. Em Vienna, a menina rica que nunca havia dividido o quarto e as coisas com alguém e não falava alemão enfrentaria a indiferença de conterrâneos, a hostilidade dos europeus e o choque das culturas ocidental e oriental, viria a concluir a High School e passaria pelos primeiros problemas da adolescência, como segregação na escola e crises de auto-estima, até a decepção do primeiro amor. Além destes desafios solitários, o estigma de estar longe, enquanto seu país enfrentava uma longa guerra a levou a uma grande desestruturação mental, o que resultaria na sua volta ao Iran, 4 anos mais tarde.

Persépolis 2- a história de um retorno descreve os reflexos dos anos da guerra do Iran contra o Iraque, e do endurecimento do regime xiita na sociedade da época. Marjane entra em depressão profunda por não se identificar mais nem como iraniana e nem como ocidental, redescobre sua nova identidade, torna-se instrutora de academia de ginástica, ingressa no concorrido curso de Design na Universidade, casa-se com um colega de curso e divorcia-se alguns anos depois. Paralelamente aos fatos do dia-a-dia da autora, ela apresenta uma gama de pequenos costumes iranianos, um interessante material para conhecer o funcionamento do Iran na revolução xiita, a reconstrução da sociedade pós-guerra e principalmente os anseios das pessoas comuns.

Logo após o divórcio, o aumento da opressão social às mulheres, estimulado cada vez mais pelo fanatismo religioso, faz com que Marjane parta definitivamente para a França, onde se tornaria autora de livros infantis e histórias em quadrinhos. Apesar da segunda partida, aos 24 anos, ser menos assustadora que a primeira, aos 14 anos, Marjane, agora definitivamente uma mulher livre, não deixa de pagar o preço pela liberdade: ela carrega o peso de ser livre, enquanto seu povo vive aprisionado por ele mesmo. Entretanto, só assim ela poderia escrever a sua história. Só pagando o devido preço é que poderemos escrever a nossa própria história.



* Marjane escreveu Persepolis originalmente em 4 partes, e estas foram agrupadas em 2 volumes para serem publicadas nos EUA. Esta resenha foi baseada na edição americana, da Pantheon Books. Em 2002, ela venceu o Angoulême International Comics Festival Prize, um dos maiores premios para autores de histórias em quadrinhos do mundo, por este trabalho, que atualmente é citado ao lado de Maus, de Art Spiegelman e Palestina, de Joe Sacco como retratos fiéis da sociedade em tempos de guerra. Hoje ela ainda vive na França, trabalhando como ilustradora, e escreve esporadicamente para o NYT. Em 2007 espera-se o lançamento do filme Persepolis.