Álcool com açúcar

Insonidades, livros, quadrinhos e os dramas da vida cotidiana

domingo, maio 10, 2009

 

Como uma releitura de "Maus" acabou virando um post sobre o Amor





Se pararmos um pouco pra pensar sobre a nossa época, veremos que os tempos são de individualismo, consumismo e, sobretudo, solidão. Tudo é descartável e ninguém é insubstituível. Nunca estivemos tão rodeados de gente e tão sozinhos. O amor, que já foi tão idealizado e rechaçado, louvado e amaldiçoado, cultuado e proibido, viu-se transformado num mero produto. E o mais engraçado, é um produto que todos querem, mas ninguém encontra: está sempre com os outros. Individualistas e consumistas que somos, perguntamo-nos desesperadamente onde ele está, o que estamos fazendo de errado para que ele não nos alcance, o que precisamos adquirir, usar, depilar, chapinhar, malhar, assistir, ler, beber, comer; que locais frequentar, e quais sites entrar, para que ele venha ao nosso encontro??? Francamente, é desanimador ver todas as pessoas felizes e contentes juntas, e nós aqui, sozinhos....

Deste modo, toda uma indústria é montada para nos mostrar o quanto somos incompetentes em nos fazermos amados. E dá-lhe revista "Nova" para aprender melhores técnicas de conquista, e dá-lhe "Men's Health" pra descobrir como ter uma noite nota 10 no primeiro encontro, e dá-lhe implante de cabelo pois nem sempre é dos carecas que elas gostam mais, e dá-lhe Viagra, e luzes caríssimas pois os homens preferem as loiras, e dá-lhe blogs que escrevem as melhores dicas pra que uma "ficante" vire uma namorada, e por aí vai. Porém nada disso adianta: continuamos sozinhos. Mesmo após encontrar alguém, continuamos sós e procurando, lendo e consumindo tudo aquilo que pode nos tornar mais e mais amados, mais e mais valorizados, para que essa pessoa não queira nos trair, trocar-nos por outra melhor, mostrar-nos que vivemos sob uma máscara para que o nosso próprio eu não se dê conta da nossa insignificância nesse mundo.

Aí instala-se um impasse: o relacionamento passa a ser o que direciona a vida, pois o "relacionar-se" tornou-se a nossa alma exterior. Alma exterior é o o conceito formulado por Jacobina, personagem de Machado de Assis no conto "O Espelho". Segundo Jacobina, no homem, não há uma alma, e sim duas, que se completam como metades de uma laranja: a alma interior, que olha de dentro para fora, e a alma exterior, que olha de fora para dentro, e que seria a personificação da própria existência em algo exterior à pessoa. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, um objeto. "Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira (...). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira".

Mas e se estivermos procurando pelo amor de forma errada? Se esse amor que tanto buscamos e tanto vemos nos outros e que, quando encontramos, torna-se uma obsessão mas não nos satisfaz, for apenas a realização de uma expectativa enviesada, ou seja, ocupar apenas a posicão daquilo que, a nossos olhos, vai nos valorizar, nos trazer status perante nossos semelhantes, e mostrar, momentaneamente, a nós mesmos que sim, que somos especiais o suficiente para conquistar alguém, que nossos esforços foram contemplados?

Enquanto relia o Maus*, era exatamente isso que me passava pela cabeça. Será que essa realidade tão seca também não deturpou nossas expectativas, a ponto de estarmos rodando no escuro e buscando por algo que seguramente nos trará alívio e nos trará bem estar, mas que é muito diferente do amor em si, e é por isso que os relacionamentos hoje estão tão descartáveis? Será que estamos realmente procurando pelo Amor?

Mas o que isso tudo tem a ver com o "Maus"?

"Maus" vocês devem conhecer: a única história em quadrinhos premiada com um prêmio Pulitzer especial em 1992, e cujo autor, Art Spiegelman, foi eleito em 2005 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.



Bem, o caso é que eu estava relendo a história, e essa segunda leitura além de conversas com amigos que acabaram de se separar ou terminaram um namoro/caso me levaram a algumas reflexões sobre essa coisa tão inexplicável que são os relacionamentos de hoje.

No livro de Art Spiegelman, temos um casal judeu bem sucedido: ele, dono de fábrica de tecidos, ela, rica culta e organizada, ambos pais de um menino de 4 anos e vivendo na Polônia. E então vem a Segunda Guerra e o III Reich. A família perde tudo o que tem: dinheiro, bens, os pais, parentes, o filho e a liberdade. E então, a única coisa que restou a eles nesses duros anos foi a ínfima esperança de se verem novamente, após terem sido separados no campo de concentração de Auschwitz (naquela época ninguém que estava nos campos sabia se a guerra iria acabar, e como iria acabar, o clima era de incerteza total frente ao futuro). Esperança esta que certamente teria perecido, caso ambos se vissem como almas exteriores um do outro. Aí podemos ver que, naquela situação de guerra, privação, e medo da morte, não havia nada em um que valorizasse ou troxesse status ao outro. E, no entanto, não havia, naquele momento, nada que, para um, fosse mais importante que o outro. Pegue uma guerra que tire tudo aquilo que fazia de você alguém na sociedade, e veja se te resta algo além da esperança de reencontrar quem você ama.

E assim como foi no relato de Art Spiegelman (trata-se de seus pais), eu ainda acredito nesse Amor. Acredito em relacionamentos nos quais as pessoas não sejam simplesmente fardas de alferes** umas para as outras, mas sim tenham importância por todas as experiências que passaram, por tudo que construíram juntos, enfim, por terem uma história de verdade, que seja suficientemente valorizada por ambos, que seja forte para manter os revezes nos seus devidos lugares, para que se priorize sempre o respeito, a cumplicidade, o cuidado. Difícil? Sim. Difícil lidar com a complexidade do outro, e do outro junto de si. Difícil reinventar todos os dias uma relação para que ela sempre se renove sem nos sentirmos fracos, ou não nos inclinarmos ao caminho do mero conformismo. Coisa que hoje, infelizmente, só se vê em histórias. E é por isso que não consigo deixar de lê-las e nem de me emocionar com elas.




* Mais sobre Maus em: Resenha Maus




** No conto "O Espelho", de Machado de Assis, Jacobina é nomeado Alferes Municipal, espécie de delegado da cidade, que tinha que usar uma farda específica. Jacobina vai para a casa de uma tia, onde é aclamado em seu uniforme como sr. Alferes, detentor de um importante status social. Porém, logo depois, todos da cada viajam por alguns dias, e Jacobina, sozinho, começa a ficar deprimido. Um dia ele resolve se olhar no espelho e vê a sua imagem difusa, embaçada, mas quando veste a farda de alferes e se olha no espelho, a imagem aparece nítida novamente. Ele, então, realiza o ritual de colocar a farda e olhar-se diariamente no espelho até que todos voltem de viagem e possam novamente aclamar-lhe pela posição social que ocupava. A farda havia se tornado a alma exterior de Jacobina.