Álcool com açúcar

Insonidades, livros, quadrinhos e os dramas da vida cotidiana

quinta-feira, julho 02, 2009

 

Como realizar um sonho






Hoje eu estava conversando com uma amiga e nós nos lembramos de um colega de cursinho com quem perdemos contato. A história dele foi muito inspiradora para mim ao longo do ano de 2008, quando estudamos no Anglo Tamandaré à noite, apesar dele nunca ter sabido disso. Vamos chamá-lo de F.

F. era um mineiro de 24 anos, que tinha vindo pra São Paulo sozinho, e se sentava ao meu lado. Não conversávamos muito, pois ambos estudávamos nos intervalos, éramos fechados e tínhamos pouco tempo. Depois de uns 2 meses de aulas, ele me ofereceu uma bolacha, e, aos poucos, fomos nos familiarizando. Em geral, houve um entendimento entre nós para guardarmos lugar um para o outro ao chegarmos. No início do ano, F. sempre estava atrasado, pois trabalhava numa loja de máquinas industriais no Brás, centro velho de São Paulo. As unhas dele eram todas machucadas, e seus dedos, maltratados. F. queria fazer Química na USP e prestava especial atenção às aulas de matemática, matéria em que tinha muita dificuldade.

No meio do ano, o volume de informações foi aumentando de forma exponencial, os simulados ficaram mais complicados, e F. começou a fazer menos pontos. Muito menos. Nessa época, ele sempre chegava nervoso ao cursinho, sentava e ficava estudando, com ar angustiado. Após um dos simulados, perguntei a ele por que estava tão alterado. F. me disse, sério, e com os olhos vermelhos, que estava no segundo ano de cursinho, e tinha vindo de uma escola pública no interior de Minas Gerais, estava vendo seus pontos no simulado decaírem e preocupava-se se ia conseguir passar, devido ao tempo escasso de que dispunha, já que trabalhava o dia inteiro. Eu passava pelo mesmo problema, não podia ajudá-lo, a não ser com a correção de alguns exercícios, porém pude ver o quanto aquilo era importante para ele. E assim, continuamos a nossa rotina de estudantes do noturno que têm compromissos de trabalho.

Um dia, no final de junho, ele chegou diferente, parecia iluminado. Não esperou minha pergunta para se explicar: tinha tomado a decisão da sua vida. Pediu demissão do serviço para ficar estudando o dia inteiro no Anglo, mudaria para um quarto mais barato no Bom Retiro (R$ 300), viria para o cursinho de bicicleta para economizar com o transporte, almoçaria no restaurante popular da rua Galvão Bueno (R$ 1,00 a refeição), e desta forma, poderia viver com suas economias por cerca de 1 ano.

E assim foi. Ao longo de todo o segundo semestre, F. chegava ao Anglo às 8 da manhã e ficava até acabarem as aulas, às 22:45 hs. Encontrei-o em alguns dias nos quais eu mesma chegava mais cedo, quando não havia atividades da pós-graduação.

O mais interessante foi que ele, ao estudar de verdade o conteúdo, começou a se entusiasmar com a própria matéria, e cada exercício de matemática que antes era uma dificuldade, tornou-se um desafio. Eu mal o conhecia, mas gostava de ver seu sorriso ao vislumbrar a solução de um problema como se ele estivesse vendo algo mágico. E não foi só isso. Apesar de ter o dinheiro contado, F. comprava todos os dias o jornal "O Estado de São Paulo" e lia cuidadosamente os editoriais para estudar redação, melhorando consideravelmente suas notas (nós do noturno estudávamos redação aos sábados). Ele também conseguiu ler todos os livros da lista Fuvest/Unicamp nesse período, se envolvendo criticamente com os respectivos enredos. Tivemos muitas discussões sobre Augusto Matraga e o Burrinho Pedrês. Suas dúvidas passaram a ser mais complexas, e seu interesse por matérias que iam além do vestibular aumentou. Emprestei a ele o livro "Grande Sertão Veredas", já que F. havia se tornado fã incondicional do seu conterrâneo, Guimarães Rosa.

Na nossa única conversa mais profunda, perguntei a ele qual foi a sua motivação para sair do interior de MG e vir a SP. F. disse, com aquele jeito de mineiro e torcedor do Atlético, que terminou o colegial, e simplesmente precisava trabalhar mas estava meio perdido na vida. Não recebeu orientação dos pais, que eram humildes. Tinha 22 anos quando chegou a SP. E depois, perguntei quando foi que ele, já em SP, estando lá em seu trabalho na fábrica de máquinas industriais do Brás, tinha tido a iniciativa de querer fazer algo diferente da sua rotina, de ir além. Aí sua resposta foi um pouco mais detalhada: respondeu que se sentia com tempo livre e queria fazer algum curso à noite, pois não queria perder aquele tempo. Como uma moça da mesma divisão que ele comentou que ia fazer cursinho Anglo em Guarulhos, ele resolveu conhecer o local, gostou da idéia e se matriculou. No primeiro ano, em 2007, F. se entusiasmou com os novos conhecimentos e a qualidade dos professores, decidiu cursar Química, mudou de unidade para o Anglo Tamandaré, começou a querer ir mais fundo. Nesse ano, apesar dos progressos, não conseguiu passar para a segunda fase da Fuvest. F. poderia ter parado por aí, mas não. Essa decisão de continuar em frente em geral não tem volta, e mostra que ele já era diferente. F. queria ser alguém, e seu esforço pra isso mostra que ele não precisava de ajuda, ele sabia que tudo dependia exclusivamente dele.

Uma situação que nunca esqueço ocorreu ao final das provas. Um dia, já nos preparando para a segunda fase da Fuvest, encontrei-o no corredor tomando um café, estava visivelmente cansado. F. ficava com os olhos vermelhos quando estava exausto. Contou que ficara lavando roupas no tanque até as 4 horas da manhã para não perder tempo de estudo no final de semana. Eu, que nem imaginava uma pessoa conhecida sobrevivendo sem uma máquina de lavar roupas, fiquei sem palavras, constrangida. Mesmo tendo uma rotina pesada, F. aparecia no cursinho sempre com roupas limpas.

A essa altura, o seu sonho de entrar na USP era apenas uma questão de tempo, e foi o que aconteceu: F. foi aprovado na primeira chamada no curso de Química, dentre os primeiros colocados.

A última vez em que o vi foi na festa dos aprovados do Anglo, em fevereiro desse ano. Ele já estava de malas prontas, ia se mudar para a moradia estudantil e se preparar para o início das aulas. Nós nos despedimos. Ele foi, enfim, em direção ao seu futuro de químico.

E assim F. passou, sem nem saber que representou um exemplo de persistência e crescimento para mim. Quem o vê hoje, talvez não enxergue a transformação que ele atravessou nos últimos 2 anos, os passos que teve que dar para ir de vendedor de máquinas industriais no Brás a universitário do curso de Química da USP. Talvez isso não importe mais. Talvez. No entanto, sinto-me privilegiada em tê-lo conhecido e poder contar a todos a história que ele começou a escrever: a sua própria.