Álcool com açúcar

Insonidades, livros, quadrinhos e os dramas da vida cotidiana

sexta-feira, novembro 16, 2012

 




leituras saudosas



um apanhado dos meus ultimos posts de 2004 (que foram todos deletados)



A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de 1946 (Sagarana edição revista)

O Nhô Augusto é uma das personagens mais bem acabadas do Guimarães Rosa (e eu nem gosto de contos, mas esse conto é um dos melhores da literatura brasileira, imperdível). Cel Augusto Esteves, ou Nhô Augusto é o tal sangue ruim mimado, safado, atrevido, infantil, apesar de ser um homem feito, fazendeiro que cresceu sem mãe, que, depois de tomar uma bela lição (falir, perder a mulher e a filha, e cair nas unhas dos inimigos), teve um lampejo do que tinha sido a sua vida até então. E os seus valores, e os seus atos? O que foram? E vislumbrou finalmente, as consequências da sua falta de respeito, da sua mediucridade, enfim, teve a consciência de como era pequeno, de como era pouco, de como ele não fazia diferença na vida da pessoas que no fim, eram importantes para ele. Mau pai, mau filho, mau marido, mau patrão, mau amigo, enfim, um merda.

Sorte dele, algumas pessoas, apesar de pagarem um preço alto por suas atitudes, nunca mudam sua perspectiva, e, no final, acho que, se tivessem esse lampejo que ele teve, seriam tão imbecis que nunca mudariam, continuariam nessa vidinha vazia, importunando os outros e ainda se achando os donos da verdade. Quer coisa pior que isso: uma vida inteira a serviço de nada.... Pior é que conheço gente assim aos punhados.. Guimarães Rosa nos mostra, com a trajetória de Matraga, de que é possível fazer algo quando a sua vida está totalmente vazia, mas o primeiro passo vem de dentro. (O que? Eu, uma pessimista convicta falando isso? Bem, eu gosto de ler ficção, gosto de dramas, gosto de Guimarães Rosa e, e como tudo o que eu faço, isso é mais uma forma de fugir da realidade, de repensá-la.

é claro que a mentalidade dele continua simples, é o Nhô Augusto gente.

" ...Pra o céu eu vou nem que seja a porrete... "

mas mesmo assim, considerando-se os valores dele antes e depois da lição, a convicção dele em melhorar é o que conta, e tenho certeza de que ele foi pro céu. Ele descansou gente, ele morreu em paz. He was ready to go

quantas pessoas podem morrer em paz consigo mesmas hj em dia?


PUXA o Nhô Augusto é uma das minhas personagens favoritas!



"E ele teve uma vontade virgem, uma precisão de contar a sua desgraça, de repassar as misérias da sua vida. Mas, mordeu a fala e não desabafou. Também não rezou. Porém, a luzinha da candeia era o pavio, a tremer, com brilhos bonitos no poço de azeite, contando histórias da infância de Nhô Augusto, histórias mal lembradas, mas todas de bom e bonito final. Fechou os olhos. Sua mãos, uma na outra, estavam frias. Deu-se ao cansaço. Dormiu."




não dá, eu tenho que reafirmar. Guimarães Rosa é muito bom! Que saudade das leituras.
Sabem porque ele é tão bom? Riobaldo. A construção das personagens. Riobaldo se debate contra as forças do bem e do mal. Mas ora, quem é o hospedeiro dessas forças? O Homem né, é no homem que essas forças residem, o medo faz parte da nossa natureza, mas qual é o medo maior e onde ele está? No próprio homem. ... Porque ele concentra em si as forças do bem e do mal (isso não tem a ver com deus,
afinal deus não existe, mas o diabo sim). Por que é tão incômodo ter dúvidas? porque dúvidas geram insegurança, e insegurança gera medo. Que é que ele vai fazer com essas forças? Uma hora vc tem que fazer algo, vc vai agir como o homem "humano", cujos instintos vivem aprisionados pela sociedade? O que é pior? Ser assim ou ser como o homem que vive que nem bicho, à mercê dos instintos?
Isso depende também da situação, tem gente boa que até mata os outros, ou, se não mata, magoa demais, mata aos pouquinhos.

"Aqueles ali eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, de gente como nós, com madrinhas e mães - eles achavam questão natural que
podiam salientemente cumprir por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem - o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano".


em Grande Sertão Veredas


É isso que ele está dizendo, "...o senhor me entende?" O senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano". A gente reza pros nossos santos, mas se precisar matar a mãe de alguém, vamos em frente.
Tem gente boa que até mata os homens? Deu pra entender? O Guimarães é admirável. O regionalismo universalista já é poderoso em si, e ainda Guimarães teima e escreve uma história que se passa no sertão dos cafundós do nada e a gente vai ler, e veja só, o cara entrou dentro da gente. Eu tenho medo de homem humano.



Dibs in search of self

Alguém ae já leu/ouviu falar do livro Dibs in search of self? É um livro de 1964, sobre uma criança que apresentava comportamentos paradoxais (ora muito imaturos, ora muito avançados) aos 5 anos de idade, quando uma série de circunstâncias a levou ao tratamento com a autora, a psicóloga e ludoterapeuta V. M. Axline. O assunto é, primordialmente,a reorganização emocional dessa criança através da ludoterapia, para a qual foi utilizada uma sala de brinquedos. A partir da reconstrução da personalidade de Dibs, acontece a reorganização da sua família inteira. Cada passo de Dibs em direção a si mesmo, na sala de brinquedos é uma lição de vida para o leitor. Quando ele avança um passo, é um alívio, e quando ele regride é uma tristeza. É um livro bem conhecido, discutido e rediscutido nos meios "psiquiátricos", e, para mim, um livro muito importante. Eu não sei bem explicar por quê, a primeira vez que li foi em 89. Acho que é porque (dentre outros mil e um aspectos intrínsecos à narrativa, lógico) hj em dia, e nos últimos quase 2 anos, esse blog tem sido a minha própria sala de brinquedos.

E o que ele fez lá, que foi se libertar das amarras emocionais que o impossibilitavam de ser uma pessoa completa, eu faço aqui....





mas à noite, no escuro, o Graciliano Ramos aparece em sonhos e me diz em forma de romance, algo que eu sinto na realidade:

"...a vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto, o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão. É horrível! Se aparecesse alguém...Estão todos dormindo..."

em
São Bernardo
Graciliano Ramos